Foi com um misto de satisfação e de descontentamento que li a entrevista de Paulo Morais, publicada no Diário de Notícias de 29 de Maio de 2006, por ocasião da publicação de um seu livro intitulado Mudar o Poder Local e a cuja apresentação pública quis associar-se Maria José Morgado. Satisfação porque a notícia me lembrou que há ainda algumas, ainda que poucas, pessoas em Portugal que não só não se vendem por dez reis de mel coado (por exemplo, o ingresso de um filho numa das nossas miseráveis universidades ou 10% de um qualquer negócio que se tem o poder de impedir porque se ocupa um cargo público), como - e isso é o mais importante - resistem ao medo inscrito na lusitana fibra dos nossos concidadãos e dizem o que vêem e o que pensam.
Descontentamento porque a notícia me recordou o facto de que as duas pessoas que em tempos recentes se opuseram frontalmente à corrupção foram ambas prontamente apeadas dos seus cargos públicos perante a indiferença geral: o tandem PSD-PP impediu a Paulo Morais a recandidatura nas suas listas e, por isso, a possibilidade de voltar a desempenhar o cargo de vereador da Câmara do Porto e de continuar a fazer aplicar a lei na atribuição e na recusa de licenças de construção; quanto a Maria José Morgado, foi destituída do cargo de Directora Geral da Polícia Judiciária pelos governantes da mesma coligação partidária assim que se tornou evidente que pretendia, ao contrário dos seus predecessores e de 95% das elites nacionais, honrar o seu cargo e o seu salário.
O caminho que este homem e esta mulher tomaram e pretendiam continuar a percorrer se o mesmo não lhes tivesse sido barrado, é o único caminho para, entre outras coisas, a "inclusão social" de que Aníbal Cavaco Silva faz agora a sua folclórica bandeira, apelando à iniciativa e à angélica boa vontade dos mesmos empresários que pressionaram o PSD-PP e obtiveram a saída de Paulo Morais das listas para a Câmara do Porto. A agitação de Aníbal Cavaco Silva seria patética se o mesmo não ocupasse o cargo de Presidente da República. Assim, é patética e trágica. Os sombrios financiadores da sua campanha eleitoral não terão contudo ficado inquietos: adivinharam certamente que, expondo o regaço, o supremo magistrado diria, com um sorriso: "São só rosas, senhores."
Se a montanha presidencial pare ratos folclóricos, os tribunais portugueses, em matéria de luta contra a corrupção, não parem absolutamente nada desde há mais de vinte anos e os juízes ainda ficam irritados se os querem obrigar a parar só um mês por ano em vez de dois. Isto apesar dos 1,7 milhões de processos pendentes nos tribunais (ou parques de estacionamento de processos) lusitanos. Parar, sim. Parir, não. Mas até o parar é relativo: parar para férias prolongadas, sim; parar ou abrandar na estrada, não. Não é por acaso que, nos jornais portugueses, a notícia dando conta de que um membro da família real de um país europeu foi multado por excesso de velocidade pode figurar ao lado da notícia sobre um porco que anda de bicicleta. É que continua a ser prática corrente, para a brigada de trânsito da GNR, não autuar os condutores de veículos pertencendo a juízes e deputados. A estes é apenas solicitado que confirmem que se encontravam em missão urgente de interesse público. Não duvido que a maioria entre invertebradamente neste esquema. Não por ter qualquer preconceito contra juízes ou deputados. Simplesmente porque, se muitos recusassem entrar no esquema, sabia-se.
Evidentemente, estes não são senão casos particulares e, se não fizessem parte do contexto português, seriam os juízes e os deputados que deveriam figurar ao lado do porco que anda de bicicleta. Infelizmente, não são casos isolados, mas sim fios de uma trama densa e robusta que, apesar de tecida com os fracos materiais que são o medo e o comodismo de muitos, oferece a aparência sólida da realidade a todos os que não se atrevem a levantar a mão contra ela. No entanto, quando pessoas como Paulo Morais ou Maria José Morgado o fazem, essa trama revela-se como aquilo que é: uma mancha purulenta e extensa, que cobre todo o país, mas que não resiste, pelo menos localmente, pontualmente, a uma boa vassourada. Naturalmente, como bom cancro que é, a trama da corrupção e da mafia institucional portuguesa rapidamente fecha os buracos abertos e continua a crescer assim que os corpos estranhos ao tumor - como Paulo Morais e Maria José Morgado - são expulsos.
Mas o que aqui interessa ao corpo afectado é o facto de as suas células - cada um de nós - poder ver a acção destas raras pessoas e compreender que não há nada de transcendente em rejeitar a cobardia da corrupção, que o céu não desaba se nos opusermos às pretensões pateticamente abusivas de meia dúzia de corporações sindicalo-profissionais (juízes, médicos, farmacêuticos, professores universitários e do secundário, etc.), aos hábitos untuosos dos empresários habituados a abrir caminho à força de envelopes com notas e aos hábitos vorazes dos funcionários e políticos habituados a receber esses envelopes.
Recordo a reacção do anterior Presidente da República, Jorge Sampaio, há uns anos a esta parte, diante de um grupo de jovens empresários portugueses que se lhe queixou da omnipresença da corrupção em Portugal, ao que o ilustríssimo detentor do mais elevado cargo público retorquiu que estava farto que lhe viessem falar da corrupção e que era melhor que, doravante, o fizessem apenas com provas na mão, o que teve o efeito esperado de calar os jovens empresários, não soubesse o então Presidente da República a quem se dirigia. Um exemplo prático da educação dos mais novos para a democracia e a cidadania.
É que os envelopes mais perniciosos não são os envelopes com notas mas sim os envelopes idênticos ao que, neste caso, o então Presidente da República, Jorge Sampaio, serviu aos jovens empresários: um envelope cheio de medo. Porque, qualquer que seja o número de envelopes recheados de notas que troquem de mãos nas divisões de obras públicas das nossas câmaras municipais, este há-de ser sempre infinitamente inferior ao número de envelopes cheios de medo que, nos diferentes níveis da sociedade portuguesa, todos os dias, em todos os instantes, ditos e não ditos, trocam de mãos. Como, por exemplo: "E a sua reputação, Sr. Dr.? Se fizer isso arrisca-se a não poder voltar a ensinar neste país!" (Já mo disseram, com o patético "Sr. Dr." e tudo.)
Apoiando-se, sem dúvida, numa tradição ancestral, o Salazar fez tão bem o seu trabalho que pôde desaparecer sem consequências, deixando em cada português não o "polícia fascista" mas o borra-botas amedrontado que, a cada gesto, lhe sussurra ao ouvido: "Mas não era melhor estares quietinho e não levantares ondas? Então já não tens o teu ecrã de plasma e o teu filho a estudar para advogado? Que mais queres tu da vida? Queres protestar? Mete-te num sindicato! Inscreve-te num partido de esquerda, se quiseres! Mas, por tudo o que é mais sagrado, não levantes ondas!"
É que a "Revolução de Abril" não se portou melhor nem pior do que os políticos de trazer por casa que gerou. Eu, o autor destas linhas, ainda que nascido antes, cresci no pós 25 de Abril e sempre me perguntei porque é que nunca encontrei nenhuma pessoa que, tendo-o vivido, fosse capaz de produzir um relato e uma interpretação coerentes do 25 de Abril. À medida que o tempo passa, a resposta parece-me cada dia mais evidente: é que a "Revolução" real e a "Revolução" imaginária nunca coincidiram. A primeira "Revolução" foi uma breve sequência em que o poder mudou parcialmente de mãos, sem nunca mudar a sua natureza, o seu sabor e os métodos que lhe estão associados, a não ser o tornar-se (inconcebivelmente) mais brando. A segunda "Revolução" foi uma projecção momentânea dos desejos e esperanças reprimidos que colectivamente se cristalizaram num "ideal", o chamado "ideal de Abril". No entanto, longe de englobar o poder real na sua esfera, o "ideal de Abril", ou melhor, os desejos e esperanças humanos que esta triste etiqueta aglomerou e cristalizou, foram instrumentalizados pelo poder de sempre, com os métodos de sempre: a modéstia e o medo, o "meta-se na sua vida", os envelopes, os camaradas por colegas e os colegas por camaradas, as protestações de honestidade e sorrisos de bom rapaz de uma miríade de sebastiõezinhos, bons soldados, quer seja do capital, do proletariado ou, mais recentemente, do consumo e do marketing, amen.
A Revolução de Abril não passou disso, de uma revolução, ainda para mais sem pinta de sangue, como se diz de um humano assustado. O vinho é o mesmo e nem sequer a garrafa é outra, apenas mudou de posição, sofreu uma revolução. Não era de uma revolução que este país precisava, mas sim de uma metamorfose, que continua adiada. O "português", que tanto gosta de falar nos seus "sacrifícios", não se sacrificou por aquilo a que chama liberdade. Não admira que, no dia a dia, a trate a pontapé. O importante vinha depois de derrubar o poder, mas o importante nunca foi tomado a peito. Enjeitado o jugo, toca a descansar ou, como diz o luso provérbio, enquanto o chicote vai e vem, folgam as costas.
Alguns não folgam, como Paulo Morais e Maria José Morgado, e é por causa deles que escrevi estas palavras.