quarta-feira, 3 de Outubro de 2007

Ideias feitas (ensaio de escatologia lusopolítica)

Depois de anos de contenção e resistência face ao turbilhão asinino de ideias feitas que em permanência assola o espaço público português, lembrei-me de dar a minha achega. Considero-me livre, no entanto, da ilusão de ser ouvido.

Se o asco não me detiver, continuarei de quando em vez a mexer no pote Lusopolítico com a minha (comprida) colher na esperança de uma improvável transmutação alquímica.

Remexamos por isso no pote, começando pelas ideias feitas.

1 - Lembro a ideia feita segundo a qual Santana Lopes seria invencível nas urnas, uma ideia feita que esteve, sem dúvida, na base da sua escolha para suceder a Barroso à cabeça do governo português e que o propeliu e ao seu partido para a anunciada derrota nas legislativas de 2005. Poderá crer-se que esta ideia feita se finou no dia em que os eleitores assinalaram claramente ao então líder do PSD que estava na hora de recolher ao parlamento ou a qualquer outra prateleira dourada. Eu não estaria tão certo. Grande parte das ideias feitas que circulam no circo político-mediático português são contra-factuais, o que, não as matando, parece torná-las mais fortes...

2 – Enquanto a anterior ideia feita percorria o seu caminho calamitoso, veio outra que, apesar de desmentida pelos eleitores e pelos factos antecedentes e subsequentes, continua a ser secretamente acalentada pelos amantes do desastre. Trata-se da ideia feita segundo a qual José Sócrates seria um “político Armani.” Se alguma ideia feita assenta em ilusões, é esta. Em primeiro lugar, Sócrates não se veste notoriamente melhor do que muitos outros políticos. A única coisa que, exteriormente, o distingue destes é o facto de ter uma silhueta trabalhada pelo exercício físico e, sem dúvida, por alguma contenção alimentar. Em segundo lugar, trata-se de um julgamento inteiramente baseado na aparência de alguém. De que serve o adágio salutar: “Não se deve julgar as pessoas pelas aparências?” Finalmente, se a consistência de que Sócrates deu prova no passado como ministro do ambiente não fosse suficiente, a determinação com que o governo que conduz tem afrontado os mais variados interesses corporativos e sindicais afim de implementar reformas essenciais demonstra à saciedade que Sócrates não é um “político Armani.”

3 - Uma outra ideia feita que resistiu – e talvez resista ainda – tenazmente às evidências retratava Marques Mendes como um político sólido, com “substância” ou, como o próprio martelava constantemente, com “credibilidade.” Isto apesar de durante dois anos e meio Marques Mendes não ter perdido uma oportunidade para se empoleirar em cada nova histeria mediática afim de lançar pedras de circunstância ao governo. Todos se lembram de como Mendes se juntou precipitadamente à tentativa de linchamento da imagem pública de Sócrates a propósito da licenciatura deste; todos se lembram de ver Mendes, após dois ou três assaltos violentos e violentamente mediatizados, encarrapitado nas imagens e nos medos, a atirar as pedras da “insegurança” a Sócrates. Infelizmente Mendes não é um David, e, à primeira oportunidade, os militantes do PSD apearam-no. Afinal, eles até sabiam que, retirando o embrulho publicitário com que Mendes se camufla, apenas se fica com um político verbal que não realizou nada de relevante. Talvez agora volte a ocupar o cargo de “Reitor” de uma universidade privada; o facto de não ser titular de um doutoramento não o deteve antes, pelo que não vejo porque haveria de detê-lo agora.

4 – A anterior iluminação foi amplamente propalada pelo beneficiário de uma outra ideia feita, a ideia segundo a qual Marcelo Rebelo de Sousa seria uma pessoa inteligentíssima, senão mesmo brilhante. Ainda me lembro da notícia acerca da recepção do crânio por um autarca que, para ilustrar a excelência intelectual do professor, explicou que o mesmo era prodigiosamente capaz de escrever com as duas mãos ao mesmo tempo. É caso para dizer que Marcelo dava dois mangas-de-alpaca pelo preço de um. Se a maior parte dos que reconduzem a ideia feita do brilhantismo marcelino se coíbem, apesar de tudo, de confortá-la com considerandos deste quilate, suspeito que as suas faculdades se esgotam neste supremo esforço inibitório. A anedota não deixa, no entanto, de convocar o adágio: “Em terra de cegos, quem tem olho é rei,” o que, aplicado ao presente caso, dá: “Em terra de elevada iliteracia, quem tem esperteza saloia é um brilhante Professor.”

Com efeito, assim que atentamos nos comentários políticos regularmente prodigalizados pelo brilhante professor, damo-nos conta de que o seu índice de solidez não pode andar muito longe do de Mendes. Senão vejamos: ao contrário do que faria um Professor a sério, o professor Marcelo não situa os objectos do seu comentário em contextos económicos, históricos ou culturais relevantes, se destes excluirmos a economia do rumor, a pequena história da intriga e a cultura do mexerico. Talvez mais importante ainda, poucas ou nenhumas vezes o magnífico professor se digna considerar os ditos e os feitos dos políticos que comenta à luz do interesse comum. Ao contrário, as suas considerações guiam-se sempre pelos interesses pessoais ou de carreira de uns e de outros, como faria qualquer compadre de esquina. Não espanta, por isso, que estes se revejam no brilhantismo do professor...

Mesmo no baixo nível em que se situam, as considerações pseudo-estratégicas de Marcelo acerca do jogo de damas da Lusopolítica não merecem qualquer tipo de crédito, uma vez que não lhe serviram para manter-se à frente do partido que brevemente liderou, nem, a fortiori, para ascender ao cargo de primeiro-ministro, ou ao de Presidente da República a que em vão aspira.

5 – Uma última ideia feita trai uma origem comum com as duas precedentes: seria a ideia feita segundo a qual o recente eleito líder do PSD, Luís Filipe de Menezes, não passaria de um reles populista. Esta ideia foi amplamente difundida por todos aqueles que, como Marcelo e Mendes, contavam que o PSD se manteria um eterno esquife para os seus interesses pessoais no mar tormentoso da Lusopolítica. Acontece que, ao contrário de Marcelo e de Mendes, Menezes realizou alguma coisa de palpável como político, ao passo que, em matéria de populismo, dificilmente atingirá o nível de especialização dos seus detractores.

Cinco ideias feitas são remexidelas suficientes no pote escatológico da Lusopolítica para um só dia. Todas elas seriam irrelevantes e indignas de um só parágrafo num espaço público cujas prioridades estivessem em ordem.

O que realmente importa passa-se aquém e além da comédia mediático-política de que as ideias feitas, os seus fazedores e as suas câmaras de eco humanas são a própria substância. Infelizmente, em Portugal, “a política” parece querer reduzir-se a esta comédia, pelo que é preciso expô-la naquilo que ela é, afim de que pessoas mais competentes possam substituir os fantoches verborreicos que alimentam o jornalismo fácil que por aqui se cultiva.