Quarta-feira, 10 de Outubro de 2007

Simbiose: da estupidez fascista bem aproveitada

Na segunda-feira passada, dia 8, dois agentes da PSP à paisana fizeram uma "visita" à sede do Sindicato dos Professores da Região Centro (SPRC), para obter informações sobre uma manifestação agendada para ontem, dia 9, junto à escola secundária que o primeiro-ministro vinha - e veio - visitar. Para além de terem pedido e obtido dos funcionários do sindicato amostras dos panfletos acabados de imprimir, os referidos agentes resolveram ainda prodigar um conselho: "Cuidado com a linguagem, que não fosse atentatória da integridade pessoal," nas palavras das testemunhas.

A aparente estupidez dos responsáveis da PSP de Covilhã foi uma verdadeira "sopa no mel" para os sindicalistas e para o PCP. Curiosamente, absolutamente ninguém pareceu reparar na passividade dos funcionários sindicais face a polícias desprovidos de mandatos de busca. O medo continua a ser um valor tácito apesar de décadas de democracia. As núpcias locais da estupidez (policial) e da passividade (dos funcionários sindicais) foram logo projectadas para o psicodrama televisivo nacional. O PCP e o seu braço sindical apressaram-se a atribuir as responsabilidades do acto burgesso ao governo, e não faltou o sindicato da polícia para tentar deflectir qualquer veleidade de atribuição de responsabilidades aos decisores locais da PSP. Num país onde há bem poucos anos se cortou a cabeça a um indivíduo numa esquadra da polícia, todos os cuidados para proteger a reputação desta são poucos...

Dois dias depois de o primeiro-ministro ter embaraçado o PCP ao dizer o que toda a gente já sabe, ou seja, que o PCP e o seu braço sindical são os principais responsáveis pelas manifestações sistemáticas onde quer que vá o chefe do governo (e as caras dos sindicalistas mais conhecidos estão lá para o provar), o comportamento nervoso e estúpido da PSP local veio dar um novo alento a um partido e a um movimento sindical que apenas se conseguem pensar na contradição.

Para além de resultar do emprego do método paranóico clássico que consiste em deduzir o autor de um acto a partir dos interesses supostamente servidos pelo mesmo, a atribuição da responsabilidade dos actos da PSP da Covilhã ao governo assenta também na recusa de encarar a persistência dos reflexos fascistas no seio da polícia e da sociedade portuguesa em geral. (O fascista é sempre o outro.) Em todo o caso, o PCP inscreve-se, na sua qualidade de partido comunista "leninista-estalinista," numa longa tradição de julgamentos sumários e de desprezo pelos factos.

O absurdo do método paranóico de que o PCP e a CGTP, na sua avidez de contradição, abusam é posto em evidência logo que abdicamos da ingenuidade política para consumo das massas que consiste em fazer de conta que os media não existem. Suspensa a patetice, apliquemos o método paranóico tão pressurosamente quanto o PCP. Ora bem, a quem beneficiou a patética "visitação" dos agentes da PSP de Covilhã à sede do sindicato dos professores quando estes se preparam para uma manifestação contra o primeiro-ministro? É evidente que o PCP e a sua extensão sindical saíram imensamente beneficiados. Os agentes até foram suficientemente brandos e os funcionários sindicais suficientemente passivos para que na hora de prestar contas o assunto possa vir a ser julgado inconsequente, permitindo um enterro sem deixar traços e uma culpabilização tácita do governo...

É esta a conclusão a que chegamos se, como os tenores e as sopranos do PCP e da CGTP, deduzirmos os autores de um dado evento pelos interesses que por este foram presumivelmente satisfeitos, sem qualquer preocupação com os factos. A única coisa que nos diferencia prende-se com a circunstância de não termos feito de conta que os media não existem.

Embora julgue que se tratou de uma estupidez localizada, do excesso de zelo salazarento de um anacrónico manga de alpaca que não quis que nada incomodasse "o senhor primeiro-ministro," não posso afirmá-lo sem deixar uma nota de dúvida. Afinal, o primeiro-ministro ou um membro do seu governo podem ter cometido a estupidez de pegar no telefone para telefonar a alguém que telefonasse ao chefe da PSP na Covilhã, estupidamente inconscientes de que a estúpida situação assim gerada lhes ia estourar, estupidamente, na cara.

O leitor julgará por si.

Post Scriptum: Esta situação não tem nada de novo. Não só repete, de forma quase mecânica, velhas situações do pós-Vinte e Cinco de Abril de 1974, como reitera, em pequena escala, a reacção fundadora do fascismo. Quem não se esqueceu da história da Europa da primeira metade do século XX, recordará que os movimentos fascistas que enxamearam a Europa (e logo o mundo) a partir de 1919, se construíram em reacção à expansão radicular da ideologia comunista na sequência da revolução Russa de Outubro de 1917. Se os nacionalismos rígidos do século XIX foram, em parte, uma transformação da, e uma reacção à Revolução Francesa de 1789 e às suas repercussões militaristas que se prolongaram durante décadas, o fascismo explica-se em boa medida como uma monstruosa metamorfose belicista e autoritária que as anteriores estruturas sociais e económicas Europeias opuseram à vaga soviética (sem prejuízo, em ambos os processos, da consideração de factores igualmente determinantes como a industrialização crescente e a destruição progressiva dos mundos rurais europeus). Um totalitarismo contra outro, esta é a destrutiva linguagem partilhada pelo comunismo e pelo fascismo, uma linguagem que, como a habilidade de andar de bicicleta, nunca se esquece.

Post-Post Scriptum de 2007-10-12: O desenlace do caso sobreveio mais cedo do que o previsto. Ver o relatório da IGAI em formato pdf: download (ficheiro PDF-81 Kb) datado do dia 11 e despachado no dia 12 (hoje) pelo ministro da administração interna. Segundo o relatório, os contactos informais para recolha de informação entre a polícia e os sindicatos eram prática corrente; um sindicalista foi mesmo indicado como contacto habitual da polícia local para prestação de informações. De acordo com os polícias interrogados, não só os folhetos foram espontaneamente oferecidos pelo funcionário administrativo do sindicato com quem contactaram, como este decidiu ainda fornecer-lhes o seu contacto pessoal e o da dirigente sindical ausente "para o caso de necessitarem de mais informações." Embora reconhecendo tratar-se de procedimentos habituais de contacto entre a polícia local e os sindicatos levados a cabo numa atitude de cooperação mútua, o autor do relatório recomenda, o inspector geral da administração interna subscreve e, por fim, o ministro da administração interna determina que, dadas as possibilidades de mal entendidos, os responsáveis locais da PSP deverão, doravante, seguir o canal formal previsto na lei, ou seja, contactar o Governo Civil do distrito sempre que necessitarem de informações sobre futuras acções sindicais, uma vez que é o Governo Civil e não a PSP que os promotores de manifestações estão legalmente obrigados a avisar. Dados os esclarecimentos fornecidos no relatório, e admitindo que os polícias e o relator não estão a mentir com todos os dentes (caso em que deveria seguir-se uma chuva de processos judiciais sobre os mesmos movidos pelo sindicato e pelos sindicalistas visados no relatório), confrontamo-nos com a possibilidade insólita de que o cenário hipotético de uma manigância rebuscada, por parte de gente da CGTP e do PCP para difamar o governo - e que apenas invoquei, sem nele acreditar, para demonstrar o absurdo do método paranóico empregue para acusar o governo - não seja assim tão hipotético e que os procedimentos conspirativos que imputam aos outros sejam, afinal, uma fiel tradução dos seus próprios procedimentos conspirativos... Quem sabe? Em todo o caso, o cheiro, pelo menos, não engana: estamos em plena Escatologia Lusopolítica!