terça-feira, 26 de Junho de 2007

Vade retrum Português brilhante!

Basta aparecer um português brilhante, talentoso e pouco inclinado a manifestações públicas de "honesto recato e humildade" a que nos habituou o velho Salazar, para logo a turba lusa se indignar e tentar reduzi-lo à medíocre mediania em que se revê. Joe Berardo não está só no ressentimento que suscita. Se o seu sucesso e a sua fortuna ofuscam e enfurecem os seus "humildes" concidadãos, no caso de Sócrates não foi a suposta ilegitimidade do seu diploma de licenciatura mas sim a habilidade, a determinação e o brilhantismo político que lhe valeram a tentativa de "assassínio de carácter" de que foi alvo. Será este atavismo luso resultado de séculos e séculos de católicas genuflexões e mea culpas colectivas face às quais quem não se apresente como um "pecador como nós" é visto como uma ameaça à tranquilidade das nossas salobras águas de bacalhau colectivas?

Joe Berardo fez fortuna e agora faculta uma importante colecção de arte aos seus concidadãos que o vaiam, humilhados. Ele, que andou demasiado tempo lá por fora, talvez não compreenda que, se queria a estima popular, melhor fora tornar-se um notável do futebol ou da política local, encher os bolsos com a conivência de muitos e o silêncio de todos, e colher a admiração lusa com uns discursos de bom rapaz ou de vítima, conforme as circunstâncias. E se os seus actos o levassem às barras dos tribunais, haveria sempre a compreensão para com um "pecador como nós" da parte de tantos humildes eleitores, adeptos e correligionários, tão modestos como ele, juncados à beira-mar, aguardando distraidamente o destino. Amen.