Sexta-feira, 1 de Fevereiro de 2008

Tremoços e verdade

Acho piada a este país onde acima de tudo convém não hostilizar quem tem dinheiro e possui jornais e outros meios de destruição de massa da imagem pública de alguém. Veja-se o trabalho minucioso de ataque pessoal que Sócrates mereceu por não se ter vergado às vontades de OPA do dono do Público. No entanto, considerada a escala habitual das malversações das elites portuguesas, apenas encontraram tremoços para atirar a Sócrates: o facto de, alegadamente, ter assinado projectos da autoria de outros. Por este andar, vão demorar um século a feri-lo de morte.

Entretanto, o senhor Santana Lopes é chefe de bancada do maior partido da oposição depois de ter mostrado inteira incompetência, não só como PM, como também, antes disso, na câmara de Lisboa, onde desbaratou milhões de Euros públicos, entre outras coisas para não hostilizar a "poderosa" Braga Parques e para duplicar serviços de informação camarários com seviços publicitários privados pagos a peso de ouro. Um gere com mão de ferro os dinheiros do país e todos lhe caem em cima. O outro usa esse dinheiro para criar clientelas e aquietar os poderosos, e todos o perdoam e toleram. Gostava de dizer bem do meu país. Mas um país que se deixa enganar por quem tem o poder de ditar aos jornalistas o que hão-de escrever e por populistas trauliteiros que se servem impunemente dos cofres camarários e regionais não merece qualquer tipo de louvor. Acordem.

Entretanto, espero que não se enterre o novo bibelot jornalístico e que se esclareça a natureza dos actos de Sócrates, a sua legalidade ou ilegalidade, e, caso esta última seja confirmada, que o Ministério Público avance com uma acusação formal. Apesar de considerar José Sócrates o melhor primeiro-ministro português desde o 25 de Abril, nem ele nem ninguém deve estar acima das leis da República. Em Portugal, poucos puderam até agora subir mais do que um ou dois degraus da escada político-económica sem que o seu progresso lhes tenha custado, no mínimo, meia dúzia de pequenas venalidades, quanto mais não seja para tranquilizar pares e superiores e olear apoios. O Público está agora a expôr o preço que Sócrates teve de pagar para subir os degraus do aparelho partidário socialista. Se, como outros, o primeiro-ministro desgovernasse em favor destes e daqueles, ninguém lhe inspeccionava as pegadas. Mas Sócrates quer governar com verticalidade depois de ter feito o que achou necessário para chegar à posição onde uma conduta vertical pode fazer mudar o rumo de um país.

Não tenho a veleidade de esperar que o Público e outros jornais utilizem os mesmos critérios para investigar o passado de outros dirigentes políticos e económicos. Se o fizessem, 95 % da nossa classe político-empresarial ficaria em muitos maus lençóis. Ou talvez não. Veja-se a ausência de consequências de uma investigação detalhada do hebdomadário Sol (há uns dois meses atrás) expondo as malversações de Pedro Santana Lopes enquanto presidente da câmara de Lisboa.

A menos, é claro, que uma "personalidade de destaque," isto é, um daqueles que normalmente só perdem em dizer o que só cegos não vêem e surdos não ouvem, se resolva a falar, como o fez e anda a fazer o senhor Marinho Pinto, bastonário da ordem dos advogados. O senhor Marinho Pinto está a chocar o país com o seu comportamento inaudito e inqualificável: está a dizer a verdade. Está a dizer que a corrupção grassa impunemente na classe política portuguesa; que o desvio de recursos do Estado e a perversão do interesse público em proveito de interesses privados são prática corrente em Portugal. Enfim, e trocado por miúdos, o senhor Marinho Pinto está a dizer que as estruturas do poder em Portugal estão essencialmente podres, que a corrupção, mais do que uma prática, se tornou num reflexo pavloviano da elite luso-canídea reunida em volta do osso do poder. E, enquanto estes abanam a cauda, alegremente ocupados a roer a carcaça pulposa do Estado, eis que alguém que deveria estar envolvido na mesma actividade, com o mesmo afã, diz: o Rei Vai Nu.

Logo se ergueram as vozes censórias dos cães de guarda do status quo, acusando Marinho Pinto de lançar acusações infundadas, desafiando-o a substanciá-las e a detalhá-las, sabendo muito bem que estão estão a dirigir-se a um homem e não a um departamento de investigação criminal da polícia judiciária.

O senhor António Cluny, presidente do sindicato dos magistrados do Ministério Público declarou, com pública virtude: "É evidente que cada um de nós, se sabe de situações graves deve intervir, claramente nesse - no sentido que elas sejam apuradas e [incompreensível]. Largar labelos [sic] generalizados sobre tudo é o pior contributo que há para que os verdadeiros culpados de alguma infracção possam efectivamente ser detectados." Gostaria de saber quantos casos de corrupção o senhor António Cluny já denunciou pessoalmente.

Outros erguem-se em defesa das instituições supostamente poluídas pelas palavras de Marinho Pinto que acusam de "atirar lama." Fala-se muito de lama. E compreende-se que reis, príncipes, valetes e escudeiros nus a receiem. Infelizmente para eles, Marinho Pinto assina e persiste. Parece que já não vai ser possível fazer tudo como dantes e ficar a assistir tranquilamente enquanto o primeiro-ministro faz de alvo de serviço ao enxovalho que, vindo dos títeres de um magnata, não incomoda a virtude pública.

Dou-lhe os meus parabéns, senhor Marinho Pinto. Não desista.

Post Scriptum de 2008-02-03:

Apesar de outros comentários meus terem sido bem acolhidos no jornal Público, desta feita, os meus reparos ao artigo de 2008-02-01, onde se alega que "Sócrates acumulou subsídio de exclusividade como deputado com funções privadas," não mereceram tratamento comparável aos dos internautas que ladraram na mesma direcção que o jornal. Deixo-os por isso aqui à consideração do público (o verdadeiro, entenda-se), não tendo, no entanto, resistido a melhorá-los e ampliá-los aqui e ali.

Um país de virtuosos

Subitamente temos um país de virtuosos. Isto nada tem a ver com o facto de o presente governo estar a tentar acabar com o regabofe dos dinheiros públicos com que pequenos e grandes se abotoam desde o 25 de Abril (continuando, é certo, práticas antigas sob o verniz da democracia). Isto não tem nada a ver com o facto de o dono do Público não ter conseguido comprar a PT. Isto não tem nada a ver com o facto de os professores, pagos com o dinheiro de todos, terem agora de fazer exames de entrada e ser avaliados pelo seu desempenho.

Se era para isto, porque é que não deixaram o senhor Pedro Santana Lopes no cargo? Ele teria deixado vender a PT ao dono do Público sem pestanejar. Cortejaria os jornalistas com comes, bebes e brindes. Gastaria os dinheiros do estado com publicidade à sua pessoa para os portugueses melhor o amarem.

Neste país, onde a mediocridade tomou residência, um bom governante é a pior ofensa. "Então ele julga-se melhor do que os outros?" Eis a reacção instintiva de um povo que se habituou a ser humilhado: o filho pelo pai ("tu não hás-de ser nada"), a mulher pelo marido ("esfrega, Maria"), o empregado pelo chefe ("desapareçe-me da minha frente seu inútil"), o devoto pela Igreja ("de joelhos!"), o utente pelo funcionário público e este pelo chefe da repartição. O jornal Público e o seu dono sabem disso. E estes, como os seus aliados de circunstância da oposição ao governo, sabem que a governação de Sócrates está prestes a dar os seus frutos. As contas públicas estão equilibradas, os funcionários públicos, pagos com o dinheiro dos Portugueses, já não se consideram donos dos seus postos de trabalho mas sabem que têm de merecer os seus salários, a DGCI e a Segurança Social já não perdoam dívidas arbitrariamente para agradar a uns e apaziguar outros e, de uma forma geral, está a começar a amanhecer uma mentalidade de que as regras são para se cumprir. Um perigo para quem estava habituado à "flexibilidade" (leia-se: corrupção e compadrio paternalista seboso) à Portuguesa!

"Regras para se cumprir?! Leis para se respeitar?! Um mundo tão cruel?! Mas de onde vêm estes rigores tão pouco lusos? Onde estão as nossas pancadinhas nas costas, o bom velho sentimento de se ser um pecador como os outros? Ai! que saudades do Pedrinho e de nos rirmos com o ministro que se vendeu pelo ingresso de um filho na universidade! Ao menos éramos todos irmãos, não éramos? E vem este Sócrates armado em bom?! Destruam-no! Nós não aguentamos a virtude, a não ser aquela que fingimos para sermos todos bons rapazes! Procurem, procurem, algum podre haverá de deitá-lo abaixo e voltaremos, sim, voltaremos a respirar de alívio com um corrupto como nós à cabeça do governo... Pode ser bem pior que o Sócrates, que importa! O importante é que não se dê ares: que não nos lembre o quão medíocres queremos continuar a ser, que não nos tente fazer melhores do que aquilo que somos quando nos arrastamos à nossa maneira confortável, rasteirinha, assim jeitosa..."