sexta-feira, 7 de Março de 2008

O MDCP

A mentalidade tacanha com que se confronta quem tenta realizar ou criar valor na sociedade portuguesa destrói o entusiasmo e gera cinismo. Se este dado choca e desespera muitos, poucos se dignam a pensá-lo. Porquê?

Hoje em dia, muitas pessoas emprenham pelos ouvidos e acreditam, por princípio, em todos aqueles que invocam argumentos vagos e palavras de ordem coloridas em defesa de interesses corporativos que as reformas do actual governo vieram pôr em causa. O iletrismo em matéria de bem comum e de interesse público parece aliar-se à preguiça mental, e a um reflexo automático de contra-poder que substitui a ponderação pela oposição incondicional.

Uma outra peça do puzzle: a condescendência com que a “opinião pública” acolheu as tentativas de linchamento da imagem pessoal do Primeiro-Ministro. Apesar de muita gente reconhecer mérito a José Sócrates à boca pequena, parece ter-se tornado politicamente incorrecto reconhecê-lo publica e inequivocamente. E se esta for uma expressão em ponto grande da mentalidade que bloqueia a sociedade portuguesa?

Parece-me útil convocar aqui uma abstracção, o “Mínimo Denominador Comum dos Portugueses” ou MDCP. O MDCP é um português-massa que, não sendo criado pelos media, é por eles fortemente conjurado. O MDCP não se limita a não reconhecer o mérito: sente-se ofendido por este e procura negá-lo e obliterá-lo por todos os meios.

Este MDCP é tão poderoso que mesmo as pessoas inteligentes e perceptivas sentem a necessidade imperiosa de lhe fazer uma pequena vénia, nem que seja de passagem, pois o MDCP não concebe que alguém possa ser outra coisa que não um “corajoso” anti-poder ou um abjecto lambe-botas. O discernimento diferencial dos actos de poder é coisa que não cabe na cabeça do MDCP porque o MDCP não tem cabeça, embora tenha um poder infinitamente superior aos dois termos (poder e contra-poder) que boçalmente articula.

Quem não se lembra da escola? Quem não recorda o espaço mental dividido entre o sector do engraxe rasteiro e o sector da heróica rebeldia de trazer por casa? E quem não percebe as continuidades entre essa clivagem e a clivagem que se lhe segue, entre o “que se lixe, tudo vale,” de um lado, e, do outro, o porreirismo que alivia os fígados atribuindo todos os males aos “grandes”? E se esta for a expressão em ponto pequeno da mentalidade que bloqueia a sociedade portuguesa?

Portanto: o MDCP é reproduzido na escola, é treinado no local de trabalho, com os conhecidos e na rua e, por fim, é amplificado até à caricatura nos media.

Num artigo de opinião publicado no Diário de Notícias de 4 de Março intitulado “Portugal e o futuro,” Mário Soares, que sempre leio com interesse, exprime a sua perplexidade perante uma antiga característica do povo português, nomeadamente o “hábito de dizer mal – não no estrangeiro, mas em Portugal – de si próprios e da sua terra.” E acrescenta: “É um mal que vem de longe, cuja razão não consigo explicar.” Não estaremos também aqui diante de uma manifestação do MDCP?

Mas qual é afinal a estrutura desse MDCP, ou “português-massa,” que constantemente importuna e assalta os portugueses? Recapitulemos, partindo do fim. O MDCP diz mal de si mesmo, isto é, de todos e de ninguém. Ele treina-se de pequenino na escola onde se cinde em duas entidades, o rebelde inconsequente e o engraxador rasteiro; metamorfoseia-se em seguida em respeitável oportunista e em porreiro justicialista de café. Reage com repugnância e hostilidade declarada a tudo que lhe cheire a mérito, dever e responsabilidade, e não resiste a um bom discurso de vítima; apesar de clamar o seu cepticismo (justicialista de café), parece acreditar que o bem comum se pode realizar sem que ninguém tenha de abdicar de nada, nem mesmo dos seus hábitos, e, à primeira oportunidade, promete-o (respeitável oportunista).

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No preciso momento em que terminava o retrato robô do MDCP, recordei com inquietude a pergunta com a qual comecei este texto: porque é que ninguém se digna a reflectir sobre a mentalidade tacanha que azeda o entusiasmo de tantas pessoas cujo maior pecado é tentar realizar algo de valor em Portugal. Até Mário Soares se limita a declarar a sua incompreensão perante um mal aparentado! A resposta veio-me num relâmpago: porque, do mesmo modo que, ao apontar a auto-depreciação dos Portugueses, Mário Soares está a incorrer na mesma, ao caracterizar o MDCP, estou a também eu a dar voz a este último, razão pela qual, desde já, com a devida vénia, leitor, me calo.