
Ocidental assumido, não deixo de ser crítico do Ocidente na medida da sua participação no campo "abstracto" do Um. Este campo compreende todas as lógicas da extensão do Mesmo, i.e. todas as lógicas missionárias que visam a reprodução de um modelo exclusivo com o qual os seus agentes se identificam e de cuja universalidade dependem, quanto mais não seja ao pressuporem-na obstinadamente. Na sua lógica interna, assim como nas suas consequências práticas, esta universalidade traduz-se no esmagamento programático de todas as formas de alteridade.
O conteúdo desta lógica é variável: pode tratar-se do monoteísmo, da revolução colectivista, mas também do racionalismo militante (que diviniza uma "Razão" reificada), do cientismo (que é a ciência idolatrada), do desenvolvimento (sustentado ou não) ou da economia de mercado como dogmas a que todos se sujeitariam se ao menos não fossem lamentavelmente ignorantes... É ao grande etnólogo francês, Robert Jaulin, que devemos a formulação precisa do campo do Mesmo, ao qual chamou, com justiça terminológica, o "universo dos totalitarismos."
O modelo liberal, na medida em que permanecer evolutivo e animado de uma preocupação autêntica com a liberdade dos humanos e dos grupos que estes constituem, pode constituir um importante espaço de abertura potencial dentro das condições civilizacionais em que nos situamos no Ocidente, assim como nas partes do mundo que, de bom ou, não poucas vezes, de mau grado, adoptaram o nosso tipo de civilização ou, pelo menos, muitas das suas formas e dos seus sub-produtos técnicos ou ideológicos. Longe de ser uma fraqueza, a pluralidade das declinações do espírito liberal é uma expressão de abertura. Todavia, dar ao modelo liberal uma maior extensão (como se esta não fosse já considerável), transformá-lo no único modelo societal aceitável, é despi-lo da qualidade de solução razoável e dotada de um contexto histórico na busca da liberdade para o revestir da dignidade espúria de vector suplementar do Um.
Esta "dignidade" desincarnada começa sempre por uma redução e, no caso do liberalismo, costuma passar pela sua redução à economia de mercado e pela erecção desta em modelo normativo universal. A "lei do mais forte" já era uma filosofia social bem antes de impregnar a leitura da "Selecção das Espécies" de Darwin e de projectar-se sobre a natureza. Estreitamente associada a esta redução, encontramos a subalternização da questão da liberdade por um individualismo agressivo que pretende incarnar a lei naturalizada do mercado. Se o moralismo monoteista projectava as suas escolhas sobre o ecrã transcendente da divindade exclusiva, o moralismo do mercado projecta as suas sobre uma natureza cuja necessidade se empresta ao mesmo exercício de justificação "transcendental." Longe de tratar-se de uma "degenerescência," esta tentação redutora é consubstancial ao liberalismo e, nomeadamente, à sua estabilização doutrinária; ela é o reverso ou sombra do espírito liberal e constitui o preço que este paga pela substituição da sua aliança historicamente situada com a economia de mercado pela sua identificação e fusão com a mesma.
Aquilo a que chamamos economia de mercado, começou por ser desenvolvido por templos e cidades-Estado Médio-Orientais no quadro de lógicas sociais de dominação que mereceriam hoje o repúdio de qualquer espírito liberal e que viriam a culminar na criação da lógica imperial dentro do espaço político internacional do Médio-Oriente. Ponto fulcral desta evolução local, o neto de Sargão de Akkad, Naram-Sin (séc. XXI ou XXII a.e.c.), foi o primeiro rei mesopotâmico a reclamar o estatuto divino e a assentar a sua dominação regional já não sobre o título de soberano de uma cidade, como era até então habitual, mas sob o manto de "rei das quatro direcções," primeira fabricação universalista em política. Os termos universalistas desta última seriam depois adoptados e transpostos para o domínio religioso pelas primeiras formulações monoteístas. Através das três esferas - económica, política e, finalmente, religiosa, - mas com uma virulência crescente, é a uma mesma lógica de extensão de um espaço ou modelo único e exclusivo que assistimos.
Se é verdade que o mercado, como lugar e como lógica, não deixou desde cedo de exercer uma pressão dissolvente de emancipação (a que Deleuze e Guattari chamariam de "desterritorialização") face às estruturas de poder que dele se serviam, seria todavia ingénuo acreditar que esta "pressão dissolvente" não é, em boa medida, também ela tributária das estruturas e das lógicas que presidiram à formação da economia de mercado. Há uma máscara de "liberdade," própria ao mercado, que não passa da substituição de outros totalitarismos mais hieráticos pelo totalitarismo do mercado; esta máscara desce sobre os rostos assim que o mercado se inflaciona para além do seu carácter instrumental e se sobrepõe à pluralidade dos fins que a existência humana, em estado de liberdade, se dá a si mesma. Quando a necessidade de vender, o valor e o "significado" dessa necessidade eclipsam a importância e o significado da experiência humana de que a coisa vendida e comprada é uma parte, já se gerou a mentira totalitária - em que assenta a pretensão da parte sobre o todo - e a correlativa ocultação do carácter aberto e, em última análise, indefinido da totalidade.
O liberalismo clássico recuperou a dimensão instrumental da economia de mercado libertando-a de certos usos políticos e colocando-a ao serviço do desmantelamento do autoritarismo de Estado e da rigidez das estruturas de dominação do século XVIII Europeu. Todavia, isso não impediu que a lógica de mercado se tornasse simultaneamente num dos mais poderosos e virulentos vectores do colonialismo Europeu na destruição da alteridade civilizacional e do espaço potencial de diversidade cultural que lhe é correlativo. Longe de se ter esgotado, o potencial de corrosão do mundo humano de que a economia de mercado é portadora metamorfoseia-se e adapta-se. Hoje, a lógica do mercado, erigida em norma moral, promove a objectificação das pessoas transformando-as em meros "recursos" a "gerir" ou, na melhor das hipóteses, em "mais-valias" a arrecadar. O próprio altruísmo é recuperado como estratégia paradoxal no jogo do racionalismo económico, acrescentando-se a uma série de reduções à esfera económica de que o sociólogo marxizante, Pierre Bourdieu, se fez o campeão ao acrescentar às formas tradicionais de capital o "capital social," o "capital cultural" e o "capital simbólico." O que, das relações humanas (social), da arte de viver (cultural) e do mundo do sentido (simbólico), não se inscrever no jogo da computação universal encontra-se assim implicitamente desqualificado e expulso das pretensões totalitárias da parte (a lógica do mercado) sobre o todo (a totalidade indefinível). Fechar os olhos a isto é condenar-se a um conservantismo liberal que pereniza, "modernizando-as," as olheiras de que a maior parte dos adeptos do liberalismo económico dos séculos XVIII e XIX não se davam e, certamente, não poderiam dar-se conta.
Como qualquer modelo, o liberalismo corre sempre o risco de fechar-se sobre si mesmo ao presumir dogmaticamente a universalidade e a intemporalidade dos seus próprios pressupostos históricos e civilizacionais, transformando-se assim em mais uma máquina de guerra da lógica metamórfica do Um.
Ontem como hoje, a economia de mercado foi e será sempre um instrumento poderoso e, por isso, dotado de um importante potencial de destruição, passível de ser utilizado tanto na construção do bem-estar de uma sociedade como em projectos messiânicos que pouco ou nada têm a ver com a liberdade da generalidade das pessoas eventualmente afectadas - e todos sabemos que esses projectos proféticos, sejam quais forem os modelos económicos ou políticos usados, se revestem sempre das melhores intenções e culminam fatalmente nas piores catástrofes. Veja-se os neo-conservadores americanos e o caos geopolítico que o seu desejo missionário de propagar o modelo democrático Ocidental trouxe ao mundo.
As ameaças à liberdade das pessoas e dos grupos humanos podem vir dos Estados como das multinacionais; elas pode desenvolver-se no seio da economia de mercado, servindo-se dos direitos e garantias que constituem o estofo das democracias liberais, como no aparelho de Estado e na economia de Estado, com a sua tentação de controlar todos os aspectos da vida das pessoas. Se a multipolaridade, que caracteriza idealmente uma economia de mercado regulada, pode constituir, dentro das sociedades que a bem ou a mal a adoptaram, uma barragem importante ao arbitrário e à tirania, a rápida polarização oligopolista e monopolista de importantes sectores da economia é uma ameaça constante que as últimas décadas de fusões e aquisições empresariais não nos devem fazer esquecer. A ameaça que uma multinacional como a Monsanto faz pesar sobre a diversidade genética das culturas agrícolas, o facto de jogar a pressão concorrencial do cálculo a curto prazo da maior produtividade (e que se traduz, muitas vezes, na ameaça à própria sobrevivência dos camponeses nos países em desenvolvimento) contra a necessidade vital de preservar, a longo prazo, a variedade genética das sementes e a autonomia económica e política de agricultores e de sociedades locais, mostra que a especificidade, o próprio do espírito liberal enquanto espírito da liberdade não é nem pode ser a economia de mercado per se mas sim o critério maior e nunca "automatizável em fórmulas" da liberdade das pessoas, da generalidade das pessoas, e, na medida do possível e do razoável, de todas as pessoas. Que a economia de mercado seja, actualmente, e para a maior parte da população humana, um instrumento indispensável a uma existência pacífica e próspera, é indubitável; que, mais do que isso, a economia de mercado se transforme no parâmetro universal com o qual todos os aspectos da existência humana devam medir-se, eis o caminho para o desastre.
Deste modo, para mim, o "liberalismo" só vale a pena se encarnar o espírito liberal, se repousar sobre a base frágil da abertura atenta à multiplicidade das formas de existência humana, seja qual for a dimensão em que esta abertura cultural se exerça (psicológica, filosófica, política, económica, civilizacional, etc.). Isto parecerá pouco a muitos, mas se alternativa for, como julgo ser, entre, por um lado, uma tal fragilidade honesta ou, por outro, a solidez factícia que consiste em equacionar de forma simplista o "liberalismo" com fórmulas universalistas e retratos-robô como "menos Estado" ou "economia de mercado," ficarei sempre do lado da fragilidade, do espírito liberal bem temperado. Como muitas outras coisas, também o valor do Estado e o valor do mercado dependem, sobretudo, da forma como são usados e controlados pelos humanos que, esses, não são abstracções, instrumentos ou coisas, mas correm sempre o risco de emprestar as suas almas aos Leviatãs abstractos, sejam estes o Estado, os Deuses Únicos, a Revolução dos Oprimidos, o Mercado Paradisíaco ou a tecnologia redentora.
Excurso Histórico
No Médio-Oriente Antigo, desenvolveu-se um singular processo histórico que conduziu à formação e à extensão da lógica de mercado sob o domínio dos templos, primeiro, e dos pequenos monarcas locais que, entretanto, foram surgindo. Esta lógica envolveu, desde cedo, a especialização e a separação da produção, do tráfico e do consumo de bens sob o controlo do templo e do palácio, assim como o desenvolvimento das primeiras técnicas contabilísticas que viriam posteriormente a dar origem à escrita. Com o passar do tempo, os monarcas foram ganhando preeminência, mantendo-se todavia sob a égide e na dependência simbólica, pública e mágica dos templos e dos seus deuses de quem se proclamavam servidores - incluindo os deuses das cidades que submetiam. Com a multiplicação das escaramuças, dos conflitos, das pilhagens reais, dos tratados de paz e de vassalagem entre soberanos, vieram a ampliação dos domínios e dos exércitos, assim como as lógicas e ambições imperiais; longe de ser contraditório com o mercado, o império fornecia-lhe o quadro político ideal. Todavia, a extensão do universalismo à esfera religiosa permaneceu bloqueada durante muito tempo. A experiência monoteísta de Akenathon (séc. XIV a.e.c.), no Egipto, esbarrou com a compreensível resistência dos sacerdotes dos diferentes templos/deuses e não sobreviveu à morte do Faraó. Quanto ao "monoteísmo" hebraico, este foi durante muito tempo, na realidade, um henoteísmo, prescrevendo o culto de um deus exclusivo apenas dentro do âmbito do grupo étnico, sem contudo expulsar do real os demais deuses; esta terá provavelmente sido uma invenção tardia, posterior ao exílio babilónico a crer na crítica bíblica académica contemporânea - uma invenção à qual poderá não ter sido estranho o exemplo do carácter divino de Cirus, o imperador persa que autorizou o regresso à Palestina dos judeus exilados na Babilónia e ao qual todos os seus sujeitos deveriam prestar culto (um costume que seria retomado por outros impérios e nomeadamente pelo império Romano). Todavia, e admitindo a pertinência desta hipótese, longe de ser directo ou automático, o decalque dao modelo de soberania de Cirus, cujo culto não era exclusivo dos demais deuses, sobre o de Yahweh implicou a transposição da exclusividade da esfera política (Cirus) para a esfera religiosa (Yahweh post-exílico).
Passaram-se ainda séculos até o universalismo se instalar definitivamente na esfera religiosa. Mas isto apenas foi possível através da aliança dos hierarcas cristãos com o poder imperial Romano que assegurou a destruição efectiva de todos os cultos não cristãos dentro do Império, legando ao seu herdeiro espiritual, o bispo de Roma, o "capital simbólico" (para utilizar a terminologia economicista de Bourdieu) que este "vendeu" aos pequenos reis e príncipes bárbaros sob a forma de filiação simbólica no defunto Império Romano. Estes, por sua vez, encarregaram-se de forçar a conversão dos seus sujeitos.
Ainda que dividida numa pluralidade cambiante de domínios políticos, a Europa não deixou de ser um império ritual e ideológico durante mil anos. Todavia, e a começar pelo Renascimento Italiano, desde cedo os fluxos comerciais fizeram circular homens, bens e informações que, pouco a pouco, foram abrindo fissuras na couraça monoteísta. Estas fissuras, que hoje agrupamos sob diferentes etiquetas como "Renascimento," "Reforma" e "Século das Luzes," caracterizaram-se pela irrupção da criatividade em diferentes domínios da actividade humana na Europa: teologia, cosmologia, geografia, ciências médicas e naturais, artes, tecnologia, literatura... A Europa, fechada sobre si e unida sob um deus cristão exclusivista e misteriosamente tripartido, cedeu rapidamente o lugar à Europa dos Impérios e da expansão colonial, levando um cortejo de catástrofes ao resto do mundo - entre elas o proselitismo monoteísta, com a sua violenta desqualificação de tudo o que dele difere, um esclavagismo imediatamente mundializado e "interesses comerciais" que só com a fixação dos colonos e de um aparelho esclavagista institucional se distinguiriam do vulgar saque e pilhagem (cf., por exemplo, as aventuras de Pizarro e Cortés).
O destino dos Impérios europeus é conhecido. A expressão religiosa do universalismo totalitário cristão contava já séculos de declínio quando os impérios coloniais se desagregaram, mas não deixou de sofrer uma queda ainda mais pronunciada no século XX. O balanço desta queda deve, no entanto, ser mitigado na medida em que foi parcialmente compensado pela emergência de uma religião secular concorrente, o comunismo, cujo retrocesso, no fim do século XX, se acompanhou de um certo recrudescimento dos cultos monoteístas. Todavia, a falta de perspectiva histórica não nos permite ainda decidir se este último desenvolvimento representa mais do que uma mera flutuação no declínio a longo prazo das velhas religiões imperiais.
Resta saber se o retrocesso da vaga totalitária vai prosseguir o seu caminho até à extinção ou se encontrou no mercado, na tecnologia e nas respectivas linguagens um suporte a partir do qual novas vagas totalitárias se lançarão em metamorfoses sucessivas através do espectro dos diferentes domínios da existência humana. O espaço, em todo o caso, está cada vez mais plano para os jogadores, sejam eles quais forem, o que, em contrapartida, significa que nunca foi tão fácil construir paredes, muros e barragens arbitrários. O mercado é, sem dúvida, um sistema cómodo, mas não passa de uma trama, de uma rede, muito aquém ou, se se preferir, muito além do indiferenciado. Saberá o espírito liberal manter-se suficientemente leve e descomprometido com linguagens únicas, mas atento? Como escreveu Chuang-Tsu, "permanece impreciso e nada te escapará."

[Nota: Este texto figura sob o título "Crítica ao Liberalismo" na página intitulada: "Liberalismo: Elogio e Crítica."]
0 comentários:
Enviar um comentário