domingo, 1 de Junho de 2008

Face às gentes do Um


Segundo um artigo do Le Monde de 2008-05-30, a FUNAI (agência brasileira que tem por missão proteger as populações indígenas do Brasil) sobrevoou e fotografou um grupo de índios numa zona recôndita do Estado do Acre afim de provar a existência destes ao mundo.

Trata-se de um daqueles grupos refractários ao contacto com os representantes deste nosso mundo do Deus e/ou da Revolução e/ou do Mercado missionariamente únicos. Ao contrário do que certas almas ingénuas poderão julgar, estes grupos humanos remotos não ignoram o mundo do Um; pelo contrário, é por conhecerem perfeitamente o seu efeito corrosivo sobre os índios "contactados" que tentam manter-se à distância. Numa situação já clássica, os grupos índios da referida região encontram-se ameaçados pela exploração ilegal da floresta amazónica no Peru, que empurra na sua direcção outros grupos índios, também eles em busca de distância face às gentes do Um. (Ver notícia da Survival de 2008-05-30.)

Entretanto, e segundo outra notícia do Le Monde de 2008-05-31, no Peru, junto à fronteira do Equador, outras tribos indígenas igualmente em "isolamento voluntário" (na realidade apenas procuram isolar-se das gentes do Um e do seu "desenvolvimento") encontram-se ameaçadas pelas petrolíferas Repsol YPF, Burlington Resources e Barrett (esta última recentemente comprada pela Perenco), as quais cobiçam os cem mil barris de petróleo diários que o chamado "bloco 67" promete, apesar de se tratar de uma área de floresta virgem habitada por aqueles índios.

Aliado das petrolíferas, o presidente do Peru, Alan Garcia, acusou os "ecologistas," num artigo publicado pelo Comercio de Lima em novembro de 2007, de "criar a figura do nativo da floresta, 'desconectado,' ou seja, desconhecido, mas cuja existência é presumida, e por causa do qual milhões de hectares não devem ser explorados." Aparentemente, terá sido em resposta ao Presidente peruano que a FUNAI tirou estas fotografias, não longe da fronteira peruana, e que a Survival as divulgou. As rivalidades internacionais jogam aqui um papel evidente. Na verdade, a destruição da floresta Amazónica no Brasil, e o consequente atentado ao ambiente, assim como à existência e ao modo de vida dos índios, não tem nada a invejar ao que se passa do lado peruano da fronteira (ver a notícia sobre a desflorestação da Amazónia brasileira publicada pelo Le Monde de 2008-02-29).

Não será um despropósito aproveitar para notar a diversidade das ornamentações pessoais na fotografia que acima se reproduz de entre as captadas pelos aviões da FUNAI: não se vê duas pinturas corporais iguais. A individualidade é expressa no corpo e não nos estampados de T-shirts produzidas em massa. ― Isto a propósito do mito, vetusto mas pertinaz, que percorre as civilizações do Um, segundo o qual, nas sociedades arcaicas, o indivíduo, reprimido na sua individuação, mal se distinguiria do colectivo... Mas afinal, em que civilizações nasceram a Inquisição, o Nazismo, o Comunismo ou o Islamismo?

Pelos frutos se conhece a árvore.