sábado, 23 de Fevereiro de 2008
Entrevista de José Sócrates: três anos de governação
quinta-feira, 21 de Fevereiro de 2008
Gestão democrática em caixinha
Acabo de assistir a mais um telejornal da uma (Sic, 21/02). A função inflamatória do costume: indignar o espectador para o colar ao ecrã até ao download de publicidade do intervalo. Se ficar obnubilado pela indignação, tanto melhor: os anúncios transformam-se em mensagens subliminares sem necessidade de infringir a lei. A justa causa de sempre é atacar o governo e dar razão aos que se vitimizam em frente às câmaras. Politicamente falando, é correcto.
Mais uma vez, as escolas. Os professores indignados com os projectos do governo sucedem-se. Os outros nem respingam, não vão os primeiros acusá-los de censura. E toda a gente sabe que a censura voltou com o actual governo: basta ligar o rádio ou a televisão para alguém nos avisar disso.
Mas o que indigna aqueles professores? Três medidas do novo regime de administração escolar:
1) a substituição do actual Conselho Directivo, um órgão colectivo composto sobretudo de professores, pelo futuro cargo unipessoal de Director;
2) o facto de esse director ser eleito e supervisionado por um Conselho Geral do qual farão parte, para além de representantes dos professores, representantes dos encarregados de educação, e da autarquia ou da comunidade local;
3) o facto de o presidente do Conselho Geral ter de ser escolhido de entre os membros não professores do mesmo.
É claro que obtive estas informações pela leitura tranquila dos jornais. Se me limitasse à televisão apenas ficaria com a impressão de que o governo pretende acabar com a “gestão democrática” das escolas e impor um tirânico director.
Alguns professores explicavam que a participação dos encarregados de educação e das autarquias já era muito fraca: para quê dar-lhes ainda mais responsabilidades?
Fizeram-me lembrar aqueles que, contrários à regulamentação do comércio e do consumo de substâncias psicotrópicas (para além do álcool e do tabaco), invocam os efeitos criminais, sanitários e psicossociais que resultam da proibição e da criminalização das mesmas.
Também me fizeram lembrar outra coisa: uma escola primária onde uma professora se sentiu incomodada por ter sido interpelada por uma mãe mal-educada, o que teve como consequência a imposição de uma nova regra: salvo autorização personalizada, todos os pais ficaram impedidos de franquear o portão da escola. Quem pode censurar os encarregados de educação por se sentirem alheados de uma escola que se fecha sobre si mesma ao mínimo contacto com o lado agreste da realidade?
Longe de ser um tirano institucional, o Director dependerá de um Conselho aberto à comunidade e que exprimirá os interesses desta e não apenas o dos professores da escola. A responsabilidade da direcção da escola já não ficará diluída num grupo essencialmente constituído por professores. Se o director decidir vedar a escola aos pais, como no caso acima mencionado, haverá uma pessoa responsável pela decisão que terá de se explicar diante do órgão de supervisão.
Mesmo na breve reportagem a que assisti, era evidente que aqueles professores agitavam o espectro de um director autoritário e paternalista. Caso flagrante de “quem diz é quem é,” ou não é verdade que, ao quererem reservar para si o essencial do poder local de gestão escolar, estes professores estão implicitamente a afirmar que são os melhores representantes dos interesses das outras partes envolvidas (pais, alunos e comunidade local)? Se isto não é paternalismo da pior espécie, vou ali e já volto.
Geme-se que Portugal não tem cultura participativa e que, por isso, tentar impô-la por cima não resulta, como se a seiva da participação pudesse correr numa estrutura de vasos desenhada para a bloquear em nós corporativos.
segunda-feira, 18 de Fevereiro de 2008
O boomerang colonial: culpa ou responsabilidade?
Foi com assombro que li a crónica do Sr. José Pacheco Pereira no Público de 16 de Fevereiro de 2008, intitulada “Boomerang,” sobre o pedido de desculpas do governo australiano pelas violências e indignidades cometidas no passado contra os aborígenes australianos.
Recuperando a velha retórica “anti-relativista” que o cardeal Ratzinger relançou imediatamente antes de arrematar o papado, o Sr. José Pacheco Pereira deplora a posição do chefe de governo australiano, Kevin Rudd, e, por implicação, a posição do parlamento federal e da expressiva maioria da sociedade australiana a quem o chefe do executivo deu voz.
Se o pedido de desculpas do representante político dos australianos se refere à totalidade das ofensas cometidas pelos europeus contra os aborígenes, o cerne do mesmo refere-se às chamadas “stolen generations”: cem mil crianças, no mínimo, sobretudo de ascendência mista (aborígene e europeia) que, entre 1869 e 1969, foram subtraídas à força às suas famílias para serem colocadas em instituições do estado, da igreja ou em famílias “brancas” no intuito de as “branquear” culturalmente.
Desde o início da penetração ocidental no continente australiano, no século XVIII, os aborígenes australianos foram objecto de assassinato em grandes números, de expulsão das suas terras ancestrais, de reagrupamento em reservas e de utilização como sub-proletariado barato. Todavia, a maior parte da população autóctone sucumbiu não em resultado do confronto directo com os europeus, mas devido às doenças que estes trouxeram consigo e para as quais aqueles não possuíam imunidade. A devastação epidemiológica levou mesmo à convicção de que era uma questão de tempo até que os aborígenes acabassem por desaparecer por completo. Se o Aboriginal Protection Act de 1869, que marcou o início da subtracção forçada de crianças aborígenes, alegou motivos humanitários, o eugenismo e o racismo científico do fim do século XIX e do princípio do século XX olhavam com maus olhos para a infusão de sangue europeu numa “raça” que o choque epidemiológico, na altura mal compreendido, fazia parecer condenada. Foi neste quadro mental que a política de rapto sistemático se desenvolveu, como um meio expedito de apagar a memória cultural e de subtrair às comunidades indígenas aqueles cujo sangue europeu poderia resgatar e fazer mudar o que se julgava ser o destino racial dos aborígenes.
Infelizmente, esta política de rapto não é um caso isolado. Ainda nos anos sessenta era praticada na Amazónia, onde crianças nativas eram também retiradas à força aos seus pais para serem criadas em missões cristãs, como o documentou Robert Jaulin no seu livro La Paix Blanche.
Tudo isto é sobejamente conhecido, apesar dos constantes esforços daqueles que, como o Sr. José Pacheco Pereira, julgam possível salvar a herança histórica e cultural europeia sem a passar pelo crivo do exame crítico da história – um exercício de lucidez a que as opiniões públicas estão, hoje em dia, mais sensíveis.
Esta abertura acrescida é, sem dúvida, um fenómeno complexo mas que só erradamente pode ser atribuído a uma qualquer “fraqueza civilizacional” que comentadores como o Sr. José Pacheco Pereira parecem temer numa lógica opositiva que nada tem a invejar às visões do mundo de um George Bush ou de um Bin Laden. Pelo contrário, a admissão de erros e a capacidade de confronto com a imagem que o espelho nos devolve é, e sempre foi, sinal de força, tanto no indivíduo como na sociedade. A este tipo de honestidade e de exame desassombrado da história, o Sr. José Pacheco Pereira prefere desdenhosamente chamar “multiculturalismo” e “relativismo cultural,” o mesmo “relativismo” contra o qual o papa Ratzinger vocifera periodicamente. Até porque existem os beatos do multiculturalismo, e é mais fácil imputar o confronto com o passado e com os demónios próprios a uma dogmática equivalência de tudo com tudo (o fantasmático “relativismo cultural”) do que responder à exigência de honestidade que se perfila no exame crítico da história do Ocidente.
Esta forma de denegação, mais subtil que o primário “negacionismo,” de que o Sr. José Pacheco Pereira procura demarcar-se ao pô-lo em paralelo com o “politicamente correcto,” não deixa de ser ela própria um sinal evidente de fraqueza que as proferições contra o espectro conveniente do “relativismo cultural” revelam mais do que escondem.
Se, ao longo das últimas décadas, as opiniões públicas se tornaram cada vez mais sensíveis ao confronto com a história e à assunção de responsabilidades (noção à qual o Sr. José Pacheco Pereira parece preferir a de “culpa,” cuja irracionalidade pode mais comodamente imbricar com a de “relativismo cultural” no sistemático exercício de evacuação em que consiste o seu artigo), isso deve-se, entre outras coisas, ao levantamento progressivo das barreiras censórias, formais e informais, que, durante séculos, protegeram o Ocidente de si próprio (mas não os outros do Ocidente). E é conveniente aqui precisar que este exame do Ocidente não concerne apenas a Europa e as sociedades fundadas por europeus, como também todas aquelas que se organizaram segundo ideologias ocidentais como o cristianismo, o comunismo e o progressismo nas suas múltiplas variantes. Afinal, não se trata de esclarecer uma identidade biológica (“raça”) mas sim opções civilizacionais; são estas que o nome “Ocidente” designa.
De entre os dados do problema que o Sr. José Pacheco Pereira preferiu não incluir no seu extenso artigo, conta-se a origem do presente movimento de opinião australiano que culminou no recente pedido de desculpas: um relatório sobre as “stolen generations” concluído pelo Procurador Geral Michael Lavarch em Maio de 1995 e apresentado no Parlamento Federal em Maio de 1997. O referido relatório, intitulado “Bringing them home,” foi realizado após anos de insistência da parte de organizações de defesa dos direitos dos aborígenes com o intuito de pôr fim à ignorância pública sobre o tratamento de que foram objecto várias gerações de famílias e de crianças aborígenes e, particularmente, de “sangue misto.” O relatório aponta, entre outras coisas, para violações grosseiras dos direitos humanos e para a intenção genocidária deliberada dos responsáveis pela política de rapto. O tratamento dado a esta centena de milhar (ou mais, ninguém sabe) de crianças e às suas famílias era simplesmente desconhecido na sociedade australiana. Não foi certamente por modéstia que, neste caso, uma mão ficou sem saber o que a outra fazia.
Apesar de se ter subtraído a um honroso pedido formal de desculpas, até o antecessor de Kevin Rudd, o conservador John Howard, reconheceu os erros escabrosos em que incorreram os seus predecessores políticos e as violências injustificáveis de que foram objecto os aborígenes. Foi por isso com espanto que, numa altura em que os Australianos acabam de dar o difícil primeiro passo na direcção da convivência honesta com a história, consigo mesmos e com a sua diversidade interna, vejo um político português invocar a explicação oficial que um governo colonial forneceu no século XIX e na primeira metade do século XX para justificar uma política de rapto de crianças com propósitos manifestamente eugénicos e etnocidários (se o genocídio é a destruição física uma população, o etnocídio é a sua destruição cultural e moral).
Fazendo eco às alegações de que o poder colonial lançou mão afim de fazer avançar a sua agenda etnocidária e eugénica, o Sr. José Pacheco Pereira explica candidamente que “o objectivo era retirar as crianças de origem mista, quase sempre com pai branco e mãe aborígene, que as comunidades originais recusavam e abandonavam e levá-las para orfanatos e instituições do estado e religiosas com o fim de as educar fora da sua cultura original, mas também de as proteger dos abusos de que eram vítimas ou, pura e simplesmente, recolhê-las porque eram abandonadas.”
Escusando-se a um negacionismo primário, o Sr. José Pacheco Pereira reconhece alguma da destruição semeada pelo empreendimento “civilizador” ocidental e deplora-a. Reunindo diferentes registos históricos sob o tema dos “pedidos de desculpa” – hoje em dia mais livremente assumidos do que outrora – o Sr. José Pacheco Pereira assinala, justamente, o facto de os horríveis crimes cometidos dentro do Império Soviético não terem sido objecto da mesma assunção de responsabilidades por parte dos comunistas e demais simpatizantes deste género de regimes. Esta incoerência é, em Portugal, acentuada pelo facto de o partido comunista local nunca ter querido distanciar-se das atrocidades estalinistas como o fizeram outros partidos comunistas europeus. Todavia, não é em defesa da honestidade, do exame histórico desapaixonado e do reconhecimento imparcial das responsabilidades de uns e de outros, para além e acima de mesquinhas clivagens político-religiosas, que o Sr. José Pacheco Pereira invoca as assimetrias ideológicas da memória.
Fazendo seu o diagnóstico de João Paulo II, que assinalou “um conceito judaico, o de teshuva, como estando na base destes pedidos de perdão,” é à influência judaica que, subtilmente, o Sr. José Pacheco Pereira atribui “esta relação de culpa, aliás um elemento muito importante que o judaísmo trouxe à modernidade e que impregnou a cultura ocidental,” lamentando que o princípio da assunção de responsabilidades históricas, que apenas consegue interpretar como “relação de culpa,” tenha transbordado aquele que parece considerar o seu domínio de aplicação canónico (o genocídio europeu dos judeus no século XX) para se tornar, nas palavras do articulista, “um ritual público muito comum nos governos à esquerda.”
Longe, por isso, de reclamar a honesta imparcialidade do julgamento histórico, o Sr. José Pacheco Pereira não faz mais do que inscrever o seu discurso na clivagem político-religiosa intelectualmente estéril que opõe um conservadorismo cristão defensivamente etnocêntrico a uma esquerda volúvel e moralmente selectiva, ambos hipócritas porque ambos sofrendo de extensos escotomas nas suas consciências históricas.
O estigma que o Sr. José Pacheco Pereira lança contra a parte oposta da lógica contraditória em que se move revela o perfil de uma posição caricatural insustentável que não deixa de reenviar àquela, simétrica e implícita, porque intelectualmente inarticulável, a partir da qual o articulista discorre: “A culpabilização do colonialismo acompanhou uma nova sensibilização ‘multicultural,’ que tende a considerar de forma relativista o valor de todas as culturas e civilizações em nome do abandono de uma visão eurocêntrica do mundo.”
A difícil assunção das suas responsabilidades históricas pelos australianos – assim como a interpelação, naturalmente penosa, que aquela constitui dentro do país europeu que há menos tempo se separou da sua realidade colonial – é assim pura e simplesmente dissolvida no fantasma político-religioso do “relativismo cultural,” um fantasma do mesmo quilate da presunção de ignominiosa devassidão que o fundamentalista católico reserva a quem tem uma vida sexual que não se pauta pelas suas regras, ou da atribuição de culposos intentos exploratórios a todos os empregadores pelo integrista de esquerda: a lógica é sempre a mesma, a sua constância elementar é disfarçada pela aparente distância entre os termos que articula; o resultado é a sua própria perpetuação por meio da sistemática elisão redutora da realidade.
É a este extremar de posições que o Sr. José Pacheco Pereira dá corpo na recta final do seu longo artigo, emprestando a sua voz às tíbias racionalizações com que o discurso colonial, num contexto histórico favorável, tentava ocultar a sua sordidez, mas que hoje é difícil ouvir ou ler sem se ser atravessado pela impressão do insólito ou do patético. Assim, o articulista afirma que práticas como o rapto de crianças (pudicamente nomeado de “roubo” com aspas) “eram feitas muitas vezes com as melhores das intenções, em nome daquilo que se pensava ser o bem-estar e dignidade das crianças, que seriam rejeitadas pelos aborígenes.” Imbuído, sem dúvida, de um ímpeto missionário, o Sr. José Pacheco Pereira prossegue: “A ideia de ‘civilizar,’ a bem ou à força, implicava também obrigações e sentido de missão que levaram muitos homens e mulheres a viverem vidas difíceis e perigosas apenas para melhorar as condições de vida daqueles que, ou queriam converter à sua religião e num certo sentido ‘salvar,’ ou a quem queriam dar condições mínimas de vida, alimentação, cuidados médicos, educação, como seres humanos que tinham direito à dignidade da vida. Foi esse, por exemplo, o papel das missões religiosas, elas próprias também um produto do colonialismo.”
Palavras para quê? Quando obrigar alguém pelas armas, pela injúria, pelo medo e pela desqualificação a renegar a sua forma de ver o mundo e a abandonar o seu modo de vida se justifica com as “melhores intenções,” quando o rapto de crianças aos seus pais se traveste com o “melhorar as suas condições de vida,” quando a expulsão e o genocídio de populações autóctones, como aconteceu na Austrália e nos Estados Unidos, são obscenamente reduzidos a um relambório de boas “intenções,” de “sentido de missão” e de “salvação,” o sentido da língua é dissolvido e a palavra humana reduz-se a nada, o mesmo nada a que conduziram as purgas e os gulags do regime soviético cujos actuais defensores não renegariam o argumentário branqueador do Sr. José Pacheco Pereira. Ou será que o Sr. José Pacheco Pereira considera, numa espécie de concurso de horrores, que as missões cristãs na Amazónia ou na Austrália onde se procedia à reeducação “cultural” das crianças indígenas sequestradas são moralmente superiores aos campos de reeducação vietnamitas?
Se, após ter cortejado o absurdo, o Sr. José Pacheco Pereira parecia não poder ir mais longe – ou mais baixo, – o leitor é surpreendido quando o articulista coloca, dentro do mesmo saco do “relativismo multicultural” onde enfiou o difícil mas honesto confronto dos australianos com a sua própria história, o dislate do arcebispo da Cantuária que sugeriu acolher a sharia dentro do sistema jurídico britânico, na esperança, talvez, de que o beatismo multiculturalista se transmita por contiguidade. Ou talvez seja o próprio articulista que sofre do tal “relativismo cultural” ao não fazer a distinção entre a cultura não missionária dos povos australianos autóctones e uma ideologia religiosa tão totalitária como aquela a coberto da qual os europeus espezinharam inúmeros povos e culturas. Naturalmente isto equivaleria a arrancar o escotoma no qual se baseia a posição do Sr. José Pacheco Pereira, uma posição que, bem mais do que etnocêntrica, é sobretudo monocêntrica e monológica. Em termos mais coloquiais, é a posição de quem não pode viver sem um credo, seja ele qual for.
A perfeita asignificação é, por fim, atingida no tom de brincadeira de quem tenta servir o imperdoável sob a forma do fantasma da capitulação face ao presente Grande Aguilhão Histórico da Lógica da Contradição, o islamismo, ao qual o Sr. José Pacheco Pereira reage obedientemente no melhor estilo bushita: “ainda acabamos por dar razão à Al-Qaeda, que nos considera como ‘cruzados,’ logo um alvo a abater pelo novo Saladino.” Num estranho exercício de dejecção por pequenos passos, o gesto de honestidade histórica do governo australiano e, por implicação, do povo australiano, acaba finalmente por ser assimilado às pretensões do terrorismo islamista.
Um coelho Marinho
Não é certamente por acaso que, de súbito, do dirigente da confederação sindical do PCP, o Sr. Carvalho da Silva, ao ex-presidente da República, o Sr. Jorge Sampaio, as mais irrelevantemente ilustres figuras da nação se mostram agora tão preocupadas com a corrupção, trazendo uma água tardia ao moinho do ex-deputado Jorge Cravinho que só pecou pela discrição com que tentou promover nova legislação contra a corrupção. Como se sabe, o aparelho do PS não gostou das iniciativas do lone ranger e mandou-o para um exílio dourado em Londres. Pela discrição não pecou o Sr. Marinho Pinto, bastonário da ordem dos advogados, e depois de duas semanas de aleivosia e arreganhar de dentes prodigados pelos zelosos guardiões do status quo, eis que todos começam a repetir o que o Sr. Marinho Pinto disse, e logo o governo tira um coelho da cartola. Um belo coelho, diga-se de passagem, esta proposta de lei que visa apoiar e defender quem denunciar situações de corrupção. A magia deste coelho consiste no timing imediatamente pós-Marinho Pinto, capaz de paralizar de medo e de vergonha as alas do auto-serviço não só do PS como também do PSD e do PP. Será que é desta que Portugal vai finalmente começar a combater a corrupção que mina as forças e o moral dos cidadãos? Uma coisa é certa, é malhar enquanto está quente.
sexta-feira, 1 de Fevereiro de 2008
Tremoços e verdade
Acho piada a este país onde acima de tudo convém não hostilizar quem tem dinheiro e possui jornais e outros meios de destruição de massa da imagem pública de alguém. Veja-se o trabalho minucioso de ataque pessoal que Sócrates mereceu por não se ter vergado às vontades de OPA do dono do Público. No entanto, considerada a escala habitual das malversações das elites portuguesas, apenas encontraram tremoços para atirar a Sócrates: o facto de, alegadamente, ter assinado projectos da autoria de outros. Por este andar, vão demorar um século a feri-lo de morte.
Entretanto, o senhor Santana Lopes é chefe de bancada do maior partido da oposição depois de ter mostrado inteira incompetência, não só como PM, como também, antes disso, na câmara de Lisboa, onde desbaratou milhões de Euros públicos, entre outras coisas para não hostilizar a "poderosa" Braga Parques e para duplicar serviços de informação camarários com seviços publicitários privados pagos a peso de ouro. Um gere com mão de ferro os dinheiros do país e todos lhe caem em cima. O outro usa esse dinheiro para criar clientelas e aquietar os poderosos, e todos o perdoam e toleram. Gostava de dizer bem do meu país. Mas um país que se deixa enganar por quem tem o poder de ditar aos jornalistas o que hão-de escrever e por populistas trauliteiros que se servem impunemente dos cofres camarários e regionais não merece qualquer tipo de louvor. Acordem.
Entretanto, espero que não se enterre o novo bibelot jornalístico e que se esclareça a natureza dos actos de Sócrates, a sua legalidade ou ilegalidade, e, caso esta última seja confirmada, que o Ministério Público avance com uma acusação formal. Apesar de considerar José Sócrates o melhor primeiro-ministro português desde o 25 de Abril, nem ele nem ninguém deve estar acima das leis da República. Em Portugal, poucos puderam até agora subir mais do que um ou dois degraus da escada político-económica sem que o seu progresso lhes tenha custado, no mínimo, meia dúzia de pequenas venalidades, quanto mais não seja para tranquilizar pares e superiores e olear apoios. O Público está agora a expôr o preço que Sócrates teve de pagar para subir os degraus do aparelho partidário socialista. Se, como outros, o primeiro-ministro desgovernasse em favor destes e daqueles, ninguém lhe inspeccionava as pegadas. Mas Sócrates quer governar com verticalidade depois de ter feito o que achou necessário para chegar à posição onde uma conduta vertical pode fazer mudar o rumo de um país.
Não tenho a veleidade de esperar que o Público e outros jornais utilizem os mesmos critérios para investigar o passado de outros dirigentes políticos e económicos. Se o fizessem, 95 % da nossa classe político-empresarial ficaria em muitos maus lençóis. Ou talvez não. Veja-se a ausência de consequências de uma investigação detalhada do hebdomadário Sol (há uns dois meses atrás) expondo as malversações de Pedro Santana Lopes enquanto presidente da câmara de Lisboa.
A menos, é claro, que uma "personalidade de destaque," isto é, um daqueles que normalmente só perdem em dizer o que só cegos não vêem e surdos não ouvem, se resolva a falar, como o fez e anda a fazer o senhor Marinho Pinto, bastonário da ordem dos advogados. O senhor Marinho Pinto está a chocar o país com o seu comportamento inaudito e inqualificável: está a dizer a verdade. Está a dizer que a corrupção grassa impunemente na classe política portuguesa; que o desvio de recursos do Estado e a perversão do interesse público em proveito de interesses privados são prática corrente em Portugal. Enfim, e trocado por miúdos, o senhor Marinho Pinto está a dizer que as estruturas do poder em Portugal estão essencialmente podres, que a corrupção, mais do que uma prática, se tornou num reflexo pavloviano da elite luso-canídea reunida em volta do osso do poder. E, enquanto estes abanam a cauda, alegremente ocupados a roer a carcaça pulposa do Estado, eis que alguém que deveria estar envolvido na mesma actividade, com o mesmo afã, diz: o Rei Vai Nu.
Logo se ergueram as vozes censórias dos cães de guarda do status quo, acusando Marinho Pinto de lançar acusações infundadas, desafiando-o a substanciá-las e a detalhá-las, sabendo muito bem que estão estão a dirigir-se a um homem e não a um departamento de investigação criminal da polícia judiciária.
O senhor António Cluny, presidente do sindicato dos magistrados do Ministério Público declarou, com pública virtude: "É evidente que cada um de nós, se sabe de situações graves deve intervir, claramente nesse - no sentido que elas sejam apuradas e [incompreensível]. Largar labelos [sic] generalizados sobre tudo é o pior contributo que há para que os verdadeiros culpados de alguma infracção possam efectivamente ser detectados." Gostaria de saber quantos casos de corrupção o senhor António Cluny já denunciou pessoalmente.
Outros erguem-se em defesa das instituições supostamente poluídas pelas palavras de Marinho Pinto que acusam de "atirar lama." Fala-se muito de lama. E compreende-se que reis, príncipes, valetes e escudeiros nus a receiem. Infelizmente para eles, Marinho Pinto assina e persiste. Parece que já não vai ser possível fazer tudo como dantes e ficar a assistir tranquilamente enquanto o primeiro-ministro faz de alvo de serviço ao enxovalho que, vindo dos títeres de um magnata, não incomoda a virtude pública.
Dou-lhe os meus parabéns, senhor Marinho Pinto. Não desista.
Post Scriptum de 2008-02-03:
Apesar de outros comentários meus terem sido bem acolhidos no jornal Público, desta feita, os meus reparos ao artigo de 2008-02-01, onde se alega que "Sócrates acumulou subsídio de exclusividade como deputado com funções privadas," não mereceram tratamento comparável aos dos internautas que ladraram na mesma direcção que o jornal. Deixo-os por isso aqui à consideração do público (o verdadeiro, entenda-se), não tendo, no entanto, resistido a melhorá-los e ampliá-los aqui e ali.
Um país de virtuosos
Subitamente temos um país de virtuosos. Isto nada tem a ver com o facto de o presente governo estar a tentar acabar com o regabofe dos dinheiros públicos com que pequenos e grandes se abotoam desde o 25 de Abril (continuando, é certo, práticas antigas sob o verniz da democracia). Isto não tem nada a ver com o facto de o dono do Público não ter conseguido comprar a PT. Isto não tem nada a ver com o facto de os professores, pagos com o dinheiro de todos, terem agora de fazer exames de entrada e ser avaliados pelo seu desempenho.
Se era para isto, porque é que não deixaram o senhor Pedro Santana Lopes no cargo? Ele teria deixado vender a PT ao dono do Público sem pestanejar. Cortejaria os jornalistas com comes, bebes e brindes. Gastaria os dinheiros do estado com publicidade à sua pessoa para os portugueses melhor o amarem.
Neste país, onde a mediocridade tomou residência, um bom governante é a pior ofensa. "Então ele julga-se melhor do que os outros?" Eis a reacção instintiva de um povo que se habituou a ser humilhado: o filho pelo pai ("tu não hás-de ser nada"), a mulher pelo marido ("esfrega, Maria"), o empregado pelo chefe ("desapareçe-me da minha frente seu inútil"), o devoto pela Igreja ("de joelhos!"), o utente pelo funcionário público e este pelo chefe da repartição. O jornal Público e o seu dono sabem disso. E estes, como os seus aliados de circunstância da oposição ao governo, sabem que a governação de Sócrates está prestes a dar os seus frutos. As contas públicas estão equilibradas, os funcionários públicos, pagos com o dinheiro dos Portugueses, já não se consideram donos dos seus postos de trabalho mas sabem que têm de merecer os seus salários, a DGCI e a Segurança Social já não perdoam dívidas arbitrariamente para agradar a uns e apaziguar outros e, de uma forma geral, está a começar a amanhecer uma mentalidade de que as regras são para se cumprir. Um perigo para quem estava habituado à "flexibilidade" (leia-se: corrupção e compadrio paternalista seboso) à Portuguesa!
"Regras para se cumprir?! Leis para se respeitar?! Um mundo tão cruel?! Mas de onde vêm estes rigores tão pouco lusos? Onde estão as nossas pancadinhas nas costas, o bom velho sentimento de se ser um pecador como os outros? Ai! que saudades do Pedrinho e de nos rirmos com o ministro que se vendeu pelo ingresso de um filho na universidade! Ao menos éramos todos irmãos, não éramos? E vem este Sócrates armado em bom?! Destruam-no! Nós não aguentamos a virtude, a não ser aquela que fingimos para sermos todos bons rapazes! Procurem, procurem, algum podre haverá de deitá-lo abaixo e voltaremos, sim, voltaremos a respirar de alívio com um corrupto como nós à cabeça do governo... Pode ser bem pior que o Sócrates, que importa! O importante é que não se dê ares: que não nos lembre o quão medíocres queremos continuar a ser, que não nos tente fazer melhores do que aquilo que somos quando nos arrastamos à nossa maneira confortável, rasteirinha, assim jeitosa..."