Poucas coisas me aborrecem mais do que descobrir, ao cabo de alguns minutos de conversa, que não estou a falar com uma pessoa, mas sim com um partido político, com um sindicato, com uma igreja ou com uma doutrina, à qual – ou ao qual – o meu interlocutor passou subitamente, e sem aviso prévio, a emprestar a voz, senão mesmo a mente, o corpo e a alma. A transição pode ser mais ou menos marcada. No entanto, a distância entre os dois estados é por vezes tão grande que me parece legítimo convocar a noção etnológica de “possessão” para caracterizar o estado no qual a pessoa abandona partes importantes da sua individualidade e se torna o instrumento local de uma organização ou de uma doutrina, seja ela religiosa, política ou outra.
A maior parte das vezes, esta forma de possessão é temporária e incompleta, mas instala-se insidiosamente no seio das interacções e confunde-se perigosamente com a personalidade das suas vítimas, uma vez que não é reconhecida pela nossa sociedade enquanto estado alterado de consciência. Alguns sinais permitem, no entanto, uma identificação positiva.
Um sinal evidente é a emergência de palavras de ordem, de slogans e de ideias feitas que passam a pontuar e a articular o discurso do possuído. Outro sinal, estreitamente associado ao primeiro, é a deterioração temporária das faculdades intelectuais e a perda nítida de contacto com a realidade, nomeadamente quando esta é incompatível com o agente da possessão. Certas marcas de reflexividade como as nuances, as dúvidas ou o reconhecimento do carácter relativo das opiniões próprias fazem-se notar pela sua ausência, sobretudo em pessoas normalmente modestas ou ponderadas. Finalmente, um outro sinal importante é o desaparecimento brusco dos hábitos de cortesia habituais na pessoa; isto manifesta-se, entre outras coisas, na distorção grosseira e descarada do sentido das palavras do interlocutor, ou na tentativa de encurralá-lo com perguntas agressivamente formuladas de forma a apenas permitirem respostas favoráveis ao agente da possessão.
No seu artigo sobre a possessão incluso no “Dictionnaire de l’ethnologie et de l’anthropologie” de Bonte e Izard, Olivier de Sardan afirma que, “no essencial, os cultos de possessão desapareceram nas sociedades ocidentais contemporâneas,” o que explicaria, segundo o autor, a percepção distorcida dos fenómenos de possessão no Ocidente, muito diferente da forma como estes são encarados nas culturas onde são comuns.
Presumo que Sardan se refira à atribuição de um significado diabólico aos fenómenos de possessão, ou então à interpretação “subjectivante” dos mesmos, que os faz depender apenas da esfera do “psicológico” e, mais especificamente, do “imaginário.” Se a primeira possibilidade corresponde à longa dominação do Ocidente pelo monoteísmo cristão, a segunda releva do universalismo secular e cientista que sucedeu ao primeiro, herdando uma parte substancial dos seus métodos. Em ambos os casos, a distorção interpretativa é tributária de um modo de funcionamento maniqueísta: Deus/Demónio num caso, e Real/Imaginário no outro; num caso como no outro, o fenómeno da possessão é excluído do domínio da normalidade, ficando por isso privado de um quadro social explícito, de uma inscrição simbólica funcional e de uma circunscrição ritual que o contenha. (A excepção à regra confirma-a ao encontrar-se nas margens da sociedade, como é o caso do domínio da bruxaria em Portugal.)
Não é por isso de espantar que, tendo os cultos de possessão sido suprimidos no Ocidente desde há mil e seiscentos anos, o fenómeno da possessão, expulso pela porta, entre pela janela e se manifeste de forma implícita, disfuncional e incontida precisamente ao serviço de doutrinas e organizações cujo modo de funcionamento prolonga a própria lógica que determinou o recalcamento da possessão como modo de relação com o invisível; refiro-me à lógica da exclusividade, seja ela religiosa (o deus “único,” a religião “verdadeira,” “a” moral, etc.), política (unicidade sindical, partido único, etc.), ou até “científica” (a atracção pela teoria única, mesmo quando diferentes teorias são igualmente válidas empírica e logicamente, o exclusivismo das modas académicas, etc.). Como se a exclusão da possessão no Ocidente tivesse aberto o caminho à possessão pela exclusão, uma forma disfarçada de possessão que não nos coibimos de disseminar e impor ao mundo durante centenas de anos.