Quinta-feira, 13 de Março de 2008

Os possessos

Poucas coisas me aborrecem mais do que descobrir, ao cabo de alguns minutos de conversa, que não estou a falar com uma pessoa, mas sim com um partido político, com um sindicato, com uma igreja ou com uma doutrina, à qual – ou ao qual – o meu interlocutor passou subitamente, e sem aviso prévio, a emprestar a voz, senão mesmo a mente, o corpo e a alma. A transição pode ser mais ou menos marcada. No entanto, a distância entre os dois estados é por vezes tão grande que me parece legítimo convocar a noção etnológica de “possessão” para caracterizar o estado no qual a pessoa abandona partes importantes da sua individualidade e se torna o instrumento local de uma organização ou de uma doutrina, seja ela religiosa, política ou outra.

A maior parte das vezes, esta forma de possessão é temporária e incompleta, mas instala-se insidiosamente no seio das interacções e confunde-se perigosamente com a personalidade das suas vítimas, uma vez que não é reconhecida pela nossa sociedade enquanto estado alterado de consciência. Alguns sinais permitem, no entanto, uma identificação positiva.

Um sinal evidente é a emergência de palavras de ordem, de slogans e de ideias feitas que passam a pontuar e a articular o discurso do possuído. Outro sinal, estreitamente associado ao primeiro, é a deterioração temporária das faculdades intelectuais e a perda nítida de contacto com a realidade, nomeadamente quando esta é incompatível com o agente da possessão. Certas marcas de reflexividade como as nuances, as dúvidas ou o reconhecimento do carácter relativo das opiniões próprias fazem-se notar pela sua ausência, sobretudo em pessoas normalmente modestas ou ponderadas. Finalmente, um outro sinal importante é o desaparecimento brusco dos hábitos de cortesia habituais na pessoa; isto manifesta-se, entre outras coisas, na distorção grosseira e descarada do sentido das palavras do interlocutor, ou na tentativa de encurralá-lo com perguntas agressivamente formuladas de forma a apenas permitirem respostas favoráveis ao agente da possessão.

No seu artigo sobre a possessão incluso no “Dictionnaire de l’ethnologie et de l’anthropologie” de Bonte e Izard, Olivier de Sardan afirma que, “no essencial, os cultos de possessão desapareceram nas sociedades ocidentais contemporâneas,” o que explicaria, segundo o autor, a percepção distorcida dos fenómenos de possessão no Ocidente, muito diferente da forma como estes são encarados nas culturas onde são comuns.

Presumo que Sardan se refira à atribuição de um significado diabólico aos fenómenos de possessão, ou então à interpretação “subjectivante” dos mesmos, que os faz depender apenas da esfera do “psicológico” e, mais especificamente, do “imaginário.” Se a primeira possibilidade corresponde à longa dominação do Ocidente pelo monoteísmo cristão, a segunda releva do universalismo secular e cientista que sucedeu ao primeiro, herdando uma parte substancial dos seus métodos. Em ambos os casos, a distorção interpretativa é tributária de um modo de funcionamento maniqueísta: Deus/Demónio num caso, e Real/Imaginário no outro; num caso como no outro, o fenómeno da possessão é excluído do domínio da normalidade, ficando por isso privado de um quadro social explícito, de uma inscrição simbólica funcional e de uma circunscrição ritual que o contenha. (A excepção à regra confirma-a ao encontrar-se nas margens da sociedade, como é o caso do domínio da bruxaria em Portugal.)

Não é por isso de espantar que, tendo os cultos de possessão sido suprimidos no Ocidente desde há mil e seiscentos anos, o fenómeno da possessão, expulso pela porta, entre pela janela e se manifeste de forma implícita, disfuncional e incontida precisamente ao serviço de doutrinas e organizações cujo modo de funcionamento prolonga a própria lógica que determinou o recalcamento da possessão como modo de relação com o invisível; refiro-me à lógica da exclusividade, seja ela religiosa (o deus “único,” a religião “verdadeira,” “a” moral, etc.), política (unicidade sindical, partido único, etc.), ou até “científica” (a atracção pela teoria única, mesmo quando diferentes teorias são igualmente válidas empírica e logicamente, o exclusivismo das modas académicas, etc.). Como se a exclusão da possessão no Ocidente tivesse aberto o caminho à possessão pela exclusão, uma forma disfarçada de possessão que não nos coibimos de disseminar e impor ao mundo durante centenas de anos.

Sexta-feira, 7 de Março de 2008

O MDCP

A mentalidade tacanha com que se confronta quem tenta realizar ou criar valor na sociedade portuguesa destrói o entusiasmo e gera cinismo. Se este dado choca e desespera muitos, poucos se dignam a pensá-lo. Porquê?

Hoje em dia, muitas pessoas emprenham pelos ouvidos e acreditam, por princípio, em todos aqueles que invocam argumentos vagos e palavras de ordem coloridas em defesa de interesses corporativos que as reformas do actual governo vieram pôr em causa. O iletrismo em matéria de bem comum e de interesse público parece aliar-se à preguiça mental, e a um reflexo automático de contra-poder que substitui a ponderação pela oposição incondicional.

Uma outra peça do puzzle: a condescendência com que a “opinião pública” acolheu as tentativas de linchamento da imagem pessoal do Primeiro-Ministro. Apesar de muita gente reconhecer mérito a José Sócrates à boca pequena, parece ter-se tornado politicamente incorrecto reconhecê-lo publica e inequivocamente. E se esta for uma expressão em ponto grande da mentalidade que bloqueia a sociedade portuguesa?

Parece-me útil convocar aqui uma abstracção, o “Mínimo Denominador Comum dos Portugueses” ou MDCP. O MDCP é um português-massa que, não sendo criado pelos media, é por eles fortemente conjurado. O MDCP não se limita a não reconhecer o mérito: sente-se ofendido por este e procura negá-lo e obliterá-lo por todos os meios.

Este MDCP é tão poderoso que mesmo as pessoas inteligentes e perceptivas sentem a necessidade imperiosa de lhe fazer uma pequena vénia, nem que seja de passagem, pois o MDCP não concebe que alguém possa ser outra coisa que não um “corajoso” anti-poder ou um abjecto lambe-botas. O discernimento diferencial dos actos de poder é coisa que não cabe na cabeça do MDCP porque o MDCP não tem cabeça, embora tenha um poder infinitamente superior aos dois termos (poder e contra-poder) que boçalmente articula.

Quem não se lembra da escola? Quem não recorda o espaço mental dividido entre o sector do engraxe rasteiro e o sector da heróica rebeldia de trazer por casa? E quem não percebe as continuidades entre essa clivagem e a clivagem que se lhe segue, entre o “que se lixe, tudo vale,” de um lado, e, do outro, o porreirismo que alivia os fígados atribuindo todos os males aos “grandes”? E se esta for a expressão em ponto pequeno da mentalidade que bloqueia a sociedade portuguesa?

Portanto: o MDCP é reproduzido na escola, é treinado no local de trabalho, com os conhecidos e na rua e, por fim, é amplificado até à caricatura nos media.

Num artigo de opinião publicado no Diário de Notícias de 4 de Março intitulado “Portugal e o futuro,” Mário Soares, que sempre leio com interesse, exprime a sua perplexidade perante uma antiga característica do povo português, nomeadamente o “hábito de dizer mal – não no estrangeiro, mas em Portugal – de si próprios e da sua terra.” E acrescenta: “É um mal que vem de longe, cuja razão não consigo explicar.” Não estaremos também aqui diante de uma manifestação do MDCP?

Mas qual é afinal a estrutura desse MDCP, ou “português-massa,” que constantemente importuna e assalta os portugueses? Recapitulemos, partindo do fim. O MDCP diz mal de si mesmo, isto é, de todos e de ninguém. Ele treina-se de pequenino na escola onde se cinde em duas entidades, o rebelde inconsequente e o engraxador rasteiro; metamorfoseia-se em seguida em respeitável oportunista e em porreiro justicialista de café. Reage com repugnância e hostilidade declarada a tudo que lhe cheire a mérito, dever e responsabilidade, e não resiste a um bom discurso de vítima; apesar de clamar o seu cepticismo (justicialista de café), parece acreditar que o bem comum se pode realizar sem que ninguém tenha de abdicar de nada, nem mesmo dos seus hábitos, e, à primeira oportunidade, promete-o (respeitável oportunista).

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No preciso momento em que terminava o retrato robô do MDCP, recordei com inquietude a pergunta com a qual comecei este texto: porque é que ninguém se digna a reflectir sobre a mentalidade tacanha que azeda o entusiasmo de tantas pessoas cujo maior pecado é tentar realizar algo de valor em Portugal. Até Mário Soares se limita a declarar a sua incompreensão perante um mal aparentado! A resposta veio-me num relâmpago: porque, do mesmo modo que, ao apontar a auto-depreciação dos Portugueses, Mário Soares está a incorrer na mesma, ao caracterizar o MDCP, estou a também eu a dar voz a este último, razão pela qual, desde já, com a devida vénia, leitor, me calo.