O PSD encontra-se num encruzilhada. A situação é dramática, mas o tempo que já fez perder ao país leva a que não mereça qualquer simpatia. Já provou ser um partido corrupto e foi condenado por isso (caso Somague).
Os militantes preparam-se para escolher entre os actuais quatro concorrentes à liderança. A candidata melhor colocada deve-o ao apoio dos media e de uma velha guarda assustada com a possibilidade de mudança. Infelizmente, nada a recomenda. A começar pela ausência de qualquer projecto político digno desse nome. Nenhuma visão para o país, nenhuma imaginação, nenhuma criatividade. Para Manuela Ferreira Leite, governar é reagir às circunstâncias, fazer a gestão corrente. Os seus apoiantes pretendem revesti-la de um manto de credibilidade, mas a sua incapacidade em controlar as contas públicas durante o seu mandato como ministra das finanças desmente-os liminarmente. Como se não bastasse a falta de visão, de energia vital e de credibilidade, a candidata fez prova de grosseira ignorância política quando, no debate da TVI, afirmou que “ser liberal significa praticamente tornar o papel do Estado inexistente”.
Aquele que, até há pouco tempo, os media e os comentadores políticos asseveravam ser o segundo candidato melhor posicionado consegue representar uma promessa pior do que Manuela Ferreira Leite para o PSD e para a nação. O país está ainda a recuperar da vergonha que foi ter Pedro Santana Lopes como primeiro-ministro – e a meio do ultraje que constitui a persistência do mesmo na arena pública depois de tudo o que já fez ao país e ao dinheiro dos contribuintes.
As onerosas negociatas de última hora do seu breve circo governativo ainda se encontram por explicar, assim como a troca de terrenos com a BragaParques (actualmente sob investigação judiciária), que promoveu como presidente da câmara de Lisboa, e que tudo indica ter sido altamente lesiva para o erário público. Como escreveu José Gil a propósito deste senhor em Portugal Hoje: O Medo de Existir: “Cria-se uma espécie de descaramento político que vem precisamente do facto de, depois de recusar dar a cara, a apresentar ao público como se nada fosse, despudoradamente.”
Estará então o PSD reduzido a escolher entre, por um lado, a falta de imaginação e de energia, e, por outro, o aventureirismo irresponsável e desenvergonhado?
Para além de Patinha Antão, irrelevante nesta corrida, resta ainda Pedro Passos Coelho, um candidato que tem vindo a colher apoios inesperados junto dos militantes do PSD que já perceberam encontrar-se o partido à beira do óbito.
Apesar de dizer-se liberal, tenho dúvidas de que Pedro Passos Coelho represente um liberalismo inteligente (porque o há burro). Embora sublinhe o papel regulador do Estado, deu já também sinais de subscrever uma certa teologia do mercado que pouco mais é do que a fossilização acéfala do liberalismo económico do século XIX, e não parece particularmente pródigo em manifestações de apoio à aplicação do valor central da liberdade aos domínios moral e comportamental, como é próprio de qualquer liberal digno desse nome. As suas intervenções alimentam a confusão entre a função redistributiva do Estado, que o liberalismo consequente subscreve sob a forma do financiamento da pessoa em matérias como a educação e a saúde, e a função provedora de serviços do Estado, que o liberalismo rejeita em favor da eficácia e da transparência de um sistema em que fornecedores de serviços, preferencialmente privados, concorrem entre si pela livre escolha dos beneficiários dos bens educativos e de saúde. Finalmente, não ouvi ainda Pedro Passos Coelho explicitar um princípio liberal fundamental: a rigorosa neutralidade do Estado relativamente aos cultos religiosos, o que passa pelo não financiamento e pelo não favorecimento estatal de qualquer culto, e nomeadamente da Igreja de Roma.
Feitas estas reservas – que não são poucas – é ainda assim evidente que Pedro Passos Coelho constitui a derradeira esperança de viabilidade para o partido. Disporão os seus militantes dos recursos anímicos necessários para evitar que estas eleições internas se transformem no intróito de um requiem para o PSD?