sábado, 7 de Março de 2009

No seio da corrupção

Gostaríamos de acreditar que algumas coisas mudam para melhor em Portugal. Afinal, livrámo-nos de uma ditadura fascista e conseguimos evitar uma outra comunista. Apesar da escolha de partidos e de políticos em Portugal ser deplorável, dispomos ainda assim do direito de não reeleger gente manifestamente corrupta ou incompetente, como fizemos nas últimas eleições legislativas. Também não nos temos saído muito mal em cuidar de limitar o poder de grupos políticos ou religiosos cuja ambição última é destruir a democracia e as liberdades básicas e impor a todos a sua cartilha doutrinária.

Infelizmente, pelo meio ficam muitas coisas por fazer. Uma delas é a questão da corrupção, que se ramifica na sociedade portuguesa como um cancro. Não destruindo a sociedade por completo, a corrupção priva-a da energia, da esperança e da confiança a que todos temos direito. Invade o corpo social até aos mais íntimos recessos e cola-se aos desejos e às aspirações mais comuns – como o desejo que qualquer jovem tem de tirar a carta de condução. Infelizmente, a corrupção continua hoje em dia presente, se não em todas, pelo menos em muitas escolas de condução portuguesas.

Soube recentemente que uma jovem minha conhecida, apesar de se encontrar ainda a vários meses da maioridade, já foi confrontada com a questão da participação ou não num acto de corrupção. Uma pessoa próxima informou-a de que, em determinada escola de condução, o pagamento imediato do custo da repetição do exame de código lhe garantiria a passagem à primeira tentativa. Não será abusivo presumir que, a essa soma, a ser paga, se poderia juntar uma outra para assegurar resultado idêntico na prova de condução.

No Portugal contemporâneo, com o fim do serviço militar obrigatório e a democratização do automóvel, a carta de condução é, provavelmente, o que de mais próximo temos de um rito de iniciação. Trata-se da aquisição pública de um novo direito, de uma nova responsabilidade e de um novo estatuto que ampliam de forma significativa a autonomia e a independência do jovem adulto. Como todos os ritos de iniciação, o processo de aquisição da carta é, também ele, uma mensagem que, muito mais do que comunicada ao jovem, é inscrita na sua nova identidade.

Caso a referida jovem aceitasse atravessar este processo pela via da corrupção (felizmente, não me parece ser esse o caso), no dia a seguir ao exame de código, para além de obter a aprovação e uma consciência eventualmente pesada, teria aprendido uma lição. Esta nunca é pronunciada nem ouvida, mas torna-se parte da forma como os que por ela passam se relacionam com o mundo. Se forçarmos a tradução desta lição silenciosa em palavras, ouviremos um discurso ao mesmo tempo familiar e insólito:

“Se o que estiver em jogo for o teu sucesso e as tuas aspirações, põe a honestidade e a lealdade no bolso, não confies na tua boa estrela, no teu esforço, ou nas tuas capacidades. Se quiseres realmente franquear alguma das muitas portas da vida adulta, prepara-te para cometeres um crime.”

A corrupção é uma Hidra de mil cabeças, as quais, como as da besta legendária, renascem assim que são cortadas. Mas, como todos os processos culturais, tem um ponto sensível no seu aparelho reprodutor, isto é, nos lugares e instituições onde, deliberada ou implicitamente, se moldam e se iniciam os jovens nas práticas dos mais velhos. Se os responsáveis políticos, policiais e forenses deste país quiserem de facto que a corrupção deixe de ser uma fatalidade endémica e passe a ser considerada publicamente como o crime torpe que é, deverão persegui-la implacavelmente nos sítios onde os jovens aprendem a ser adultos.