O candidato pelo PS às eleições Europeias, Vital Moreira, foi insultado, agredido e mesmo perseguido várias centenas de metros por manifestantes da CGTP depois de a delegação do PS de que fazia parte se ter acercado do secretário-geral da central sindical para cumprimentá-lo por ocasião das celebrações do 1º de Maio.
Como é do conhecimento geral, a CGTP é conotada com o PCP. Grande parte dos membros da central sindical é militante do Partido Comunista que assim exerce sobre aquela um controle de facto.
Vital Moreira foi um destacado militante do PCP até deixar o partido há cerca de 20 anos. Segundo o candidato do PS – que, entre mais graves injúrias, a turba apodou de “traidor,” “vendido” e acusou de “vender o partido” – as agressões de que foi alvo estão relacionadas com o seu passado político, um passado do qual, não obstante, afirmou orgulhar-se, na medida do seu contributo para a democracia.
Dada a estrutura totalitária do comunismo de inspiração leninista-estalinista, mais do que uma dissidência, ou mesmo uma deserção, toda a saída do PCP é encarada pelos seus membros como uma verdadeira apostasia. A violência de que o candidato do PS foi alvo é uma manifestação evidente desta reacção visceral.
À arruaça seguiu-se a dejecção do secretário-geral da CGTP. Embora tenha posteriormente emendado a mão e pedido desculpas a Vital Moreira, Carvalho da Silva, na sua primeira reacção pública ao sucedido, mais do que lamentá-lo, desculpabilizou os agressores, cujos actos atribuiu ao “sofrimento” resultante da crise, e recomendou aos agredidos que tirassem “um ensinamento” da agressão – uma admoestação cujo tom faz curiosamente lembrar os “conselhos de amigo” dos homens do Estado Novo.
Ao insólito veio acrescentar-se a pertinácia do secretário-geral do PCP que, tendo começado por assobiar para o ar, dizendo que não vira nada pelo que não comentava, persistiu na sua cegueira, não condenando os actos de violência nem pedindo desculpas pelo comportamento dos seus militantes. Jerónimo esticou o absurdo ao ponto de exigir desculpas ao PS por este ligar explicitamente a agressão e os agressores ao PCP – como se o rei não fosse nu...
Após cerca de 33 anos de democracia constitucional, os membros do PCP mantêm os reflexos anti-democráticos de que fizeram triste prova no chamado “Verão Quente” quando, tendo ainda o seu homem de mão como Primeiro-Ministro (não-eleito pelos Portugueses), tudo fizeram para tentar impedir as consequências das eleições de 25 de Abril de 1975 para a Assembleia Constituinte, as quais deram uma larga maioria ao PS (37.87%) e uma votação expressiva no PPD (26.39%), tendo o PCP colhido uns escassos 12.46% dos votos.
Portugal é um dos raros países europeus que continuou a contar com um partido comunista após a queda do Muro de Berlim e a dissolução da União Soviética. É, possivelmente, o único país da União Europeia com um partido comunista de orientação leninista-estalinista. Não acredito que as novas gerações de Portugueses, que cresceram ou mesmo nasceram depois do 25 de Abril de 1974, se revejam nestas atitudes violentas e anti-democráticas. Aqueles que conheceram o Estado Novo e assistiram à tentativa de sovietização do país no pós-25 de Abril sabem em primeira-mão qual é o valor da democracia constitucional e das liberdades e garantias associadas a um Estado de Direito.
Historicamente falando, os partidos comunistas sempre ostentaram uma dupla face. Fora das suas fronteiras, a União Soviética alegava a defesa dos povos e o direito dos trabalhadores. Dentro, os sindicatos eram proibidos, as férias reduziam-se a uma semana (ver O Meu País e o Mundo de Andrei Sakharov) e a opressão era omnipresente. (Isto para não falar das purgas estalinistas e de um balanço final de muitos milhões de mortos – um impensável que mal cabe numa discussão racional.) Cuba oferece tratamento oftalmológico sem encargos a cidadãos de outros países em troca da publicidade gratuita nos boletins noticiosos estrangeiros que daí advém, enquanto mantém os seus cidadãos presos dentro do próprio país, sem liberdade de expressão e com um salário médio de 10 Euros mensais. Após a Segunda Guerra Mundial, os Partidos Comunistas dos países da Europa de Leste afirmaram-se favoráveis ao multi-partidarismo e às coligações governamentais. Não demorou muito até que, com o apoio político e militar dos Soviéticos, assumiram o controlo total do Estado, ilegalizaram os demais partidos e perseguiram os seus militantes. Não é, pois, por acaso que, por ocasião da sua integração na União Europeia, alguns partidos políticos dos países da Europa de Leste levantaram a questão de princípio da interdição de partidos comunistas na Europa ao mesmo título a que são actualmente interditos os partidos explicitamente fascistas. Como Vital Moreira, quando aludiu imediatamente à sua qualidade de ex-militante do PCP como causa da agressão de que foi alvo, também os habitantes da Europa de Leste sabem do que a casa comunista gasta.
Do mesmo modo que a voz melífula dos ministros da Igreja Católica lança um manto sonolento sobre a vontade católica de impor a sua marca particular de moralidade a todos os Portugueses, as boas intenções que o PCP não se cansa de ostentar relegam para um discreto plano de fundo a sua vocação geneticamente totalitária.
Raras vezes retira o lobo a pele de cordeiro, demasiado valiosa para ser dispensada quando se não dispõe do poder da espada. Em casos extremos, a vontade de desferir um golpe baixo obriga-o a descobrir um membro. Outras vezes, descai-se à vista de todos, mostrando a sua verdadeira natureza. Foi o que aconteceu no passado dia 1 de Maio, com a agressão absurda de que Vital Moreira foi alvo.