Como muitos Portugueses, estou cansado e enojado de ver médicos e responsáveis políticos usar técnicas de chantagem emocional para tentar coagir os cidadãos a vacinarem-se contra uma gripe que tudo indica ser menos letal do que a habitual gripe sazonal.
São as grávidas que se encontram actualmente na mira daqueles cujo trabalho é justificar a política de vacinação do Estado português e nomeadamente a escolha da Pandemrix, uma vacina com adjuvante da GlaxoSmithKline cuja segurança está longe de ser uma certeza.
Ainda anteontem (CM, 2009-11-29) a ministra da saúde, Ana Jorge, secundada pelo director-geral de saúde, Francisco George, voltou a lançar os seus apelos para que as grávidas se façam inocular. Estas, recorde-se, recusaram em massa a vacinação na sequência de duas mortes fetais em meados de Novembro em grávidas que tinham sido inoculadas poucos dias antes.
Só algum tempo depois ficámos a saber que apenas 5.000 grávidas se vacinaram num total de 60.000. Ignoro qual a taxa de morte fetal mas duvido que estas duas mortes sejam estatisticamente significativas (seria necessário uma amostra mais alargada). Todavia, apesar de achar que estas duas mortes fetais foram a razão que deteve inicialmente as grávidas, não creio que sejam a única razão pela qual elas se mantêm afastadas da Pandemrix.
Ana Jorge e Francisco George, parecem, ao contrário, persuadidos disso mesmo, talvez por não lhes interessar considerar as outras razões que as grávidas e muitos Portugueses possam ter para não querer ser inoculados com a vacina adjuvada da GlaxoSmithKline. Todavia, esta presunção de menoridade intelectual lançada sobre as grávidas acaba por ter o efeito contrário ao esperado.
Num sinal claro de desespero, Ana Jorge resolveu invocar casos de grávidas que morreram após terem contraído a gripe A e ainda os casos de "pelo menos mais uma ou duas grávidas nos cuidados intensivos, que já tiveram as suas crianças, que foram partos pré-termo, que não foram vacinadas e correm risco de vida" (DN, 2009-11-29).
A julgar pelas fontes consultadas, Ana Jorge não parece ter-se dado ao trabalho de especificar se a gripe A foi a causa única ou sequer a causa principal da morte das duas grávidas a que se refere. Tão pouco explica se as grávidas não-vacinadas que estão nos cuidados intensivos já contraíram efectivamente a Gripe A ou se está simplesmente a falar de um perigo potencial.
Todavia, mais importante ainda do que a qualidade dos casos invocados pela ministra, ou pelos directores hospitalares que lhe fazem eco está o carácter especioso e casuístico da argumentação utilizada. Ou seja, Ana Jorge anda a fazer precisamente aquilo de que ela e o seu director-geral de saúde acusam os media e as grávidas: transformar casos pontuais em tendências gerais, a contiguidade temporal em relação causal, e a potencialidade em realidade.
Ana Jorge e Francisco George sabem muito bem que, tragédias pessoais à parte, falar de x mortes de grávidas que contraíram a gripe A (e reparem que, subtilmente, a atribuição causal é quase sempre implícita) ou de y grávidas com gripe A nos cuidados intensivos é desprovido de um conteúdo tangível em termos de saúde pública a menos que seja dentro de uma comparação significativa ou em referência a um universo que lhes dê significado estatístico. Assim, conviria saber quantas mortes fetais ocorrem todos os anos em grávidas que contraíram a gripe sazonal ou quantas grávidas e parturientes necessitam de cuidados intensivos todos os anos após terem contraído a gripe sazonal.
Ao dramatizar casos particulares e ao apelar despudoradamente ao sentimento a ministra está a minar a sua própria credibilidade. Todavia, Ana Jorge ultrapassa todas as marcas ao pôr em causa o bom julgamento dos clínicos que não pensam como ela e ao proferir uma verdadeira ameaça velada: "Se uma das grávidas a quem foi aconselhado não fazer a vacina tiver um problema, de quem é a responsabilidade, pelo menos, a responsabilidade moral e ética?" Depois de um aborto espontâneo e duas mortes fetais em grávidas portuguesas que seguiram o conselho da boa ministra, poderia aqui virar-se o bico ao prego e perguntar-se-lhe se está disposta a assumir a responsabilidade, senão criminal, pelo menos moral e ética das referidas mortes caso se prove que as mesmas foram causadas ou adjuvadas pela vacina? Ou será que a responsabilização só funciona num sentido, que é o mais conveniente para a ministra?
O facto de o uso da Pandemrix ter sido aprovado pela Agência Europeia do Medicamento para pessoas de todas as idades acima dos seis meses, incluindo grávidas, sem que a segurança da vacina ou a do seu aditivo, o AS03, tenham sido clinicamente testado em grávidas e em crianças entre os 6 e os 35 meses, não isenta o Estado Português das suas responsabilidades perante os seus cidadãos.
Não é por acaso que o Estado Alemão se preparava para vacinar os seus funcionários públicos e o seu exército com a vacina não-adjuvada reservando a adjuvada para a restante população (Ver artigo no Irish Times). Não é por acaso que a Associação Médica Alemã se insurgiu contra o plano aconselhando o uso da vacina não-adjuvada nas crianças e nos grupos de risco (e as grávidas são um grupo de risco). Mais:
Não é por acaso que o Estado Francês reservou doses suficientes de vacinas sem adjuvante para as "grávidas, as crianças entre os 6 e os 23 meses e as pessoas sofrendo de doenças sistémicas (como o lupus ou a sarcoidose) ou de uma imunodeficiência associada a um problema grave de saúde" (Le Monde, 2009-11-28).
Ao contrário do que a ministra da saúde e outros responsáveis político-burocráticos portugueses parecem julgar, as grávidas portuguesas não são estúpidas. Pelo contrário, elas sentem e sabem que aqueles cuja responsabilidade deveria ser velar pelo seu bem estar e segurança não estão a fazer um bom trabalho. Provavelmente a maior parte delas sabe utilizar um motor de pesquisa melhor do que a ministra da saúde e, num país de emigrantes, muitas delas saberão ler notícias noutras línguas bem melhor do que Ana Jorge.
Se Ana Jorge realmente acredita que a Gripe A é a ameaça que diz ser, na sua qualidade de médica e de ministra da saúde deveria ter feito tudo ao seu alcance para garantir que pelo menos as grávidas e as crianças mais pequenas pudessem ter acesso a vacinas não-adjuvadas. As grávidas têm toda a razão em desconfiarem da segurança da Pandemrix. Têm as mesmas razões que a Associação Médica Alemã e que o Estado Francês -- e têm as mesmas razões que o Estado Federal Americano que está a disponibilizar apenas vacinas não-adjuvadas para todos os segmentos da população.
No mesmo artigo do Correio da Manhã que dá voz às tentativas desesperadas de pressão da ministra sobre os profissionais de saúde lê-se que "ao fim de um mês de vacinação, há cem mil portugueses que optaram pela vacina. O aumento da população imunizada é uma das causas apontadas para a redução da epidemia em Portugal." Infelizmente, o artigo não explicita quem faz esta afirmação cabeluda, mas o contexto permite-nos inferir que se trata ainda de Ana Jorge. Seja quem for, labora na linha do ministério da saúde ao querer fazer-nos acreditar que a vacinação de menos de 1% da população Portuguesa é o responsável pela redução da epidemia (redução que se está a verificar em muitos outros países). Há um nome na linguagem comum para isto: chama-se uma patranha desenvergonhada.
Mas esta patranha permite-nos compreender melhor a ansiedade de Ana Jorge e de Francisco George. É que estes senhores precisam de vacinar ainda muita gente para:
1) poderem reclamar o crédito, que já praticamente lhes fugiu das mãos, de terem controlado a pandemia;
2) poderem disfarçar o facto de a Gripe A não ser tão grave quanto têm apregoado;
3) esconderem o facto de que a taxa de mortalidade da Gripe A é provavelmente inferior à da gripe sazonal;
4) escamotearem o facto de que andaram a recomendar que grávidas e crianças pequenas fossem inoculadas com uma vacina adjuvada que foi aprovada sem que a sua segurança e a segurança do seu adjuvante tivessem sido clinicamente testadas em grávidas e em crianças com idades compreendidas entre os 6 e os 35 meses.
No mesmo artigo somos informados de que já morreram 8452 pessoas em todo o mundo depois de contraírem a Gripe A, o que parece impressionante. Até considerarmos o facto de que todos os anos morrem entre 250.000 e 500.000 pessoas no mundo devido à gripe sazonal segundo dados da OMS (2009-11-11, Reuters).
São as grávidas que se encontram actualmente na mira daqueles cujo trabalho é justificar a política de vacinação do Estado português e nomeadamente a escolha da Pandemrix, uma vacina com adjuvante da GlaxoSmithKline cuja segurança está longe de ser uma certeza.
Ainda anteontem (CM, 2009-11-29) a ministra da saúde, Ana Jorge, secundada pelo director-geral de saúde, Francisco George, voltou a lançar os seus apelos para que as grávidas se façam inocular. Estas, recorde-se, recusaram em massa a vacinação na sequência de duas mortes fetais em meados de Novembro em grávidas que tinham sido inoculadas poucos dias antes.
Só algum tempo depois ficámos a saber que apenas 5.000 grávidas se vacinaram num total de 60.000. Ignoro qual a taxa de morte fetal mas duvido que estas duas mortes sejam estatisticamente significativas (seria necessário uma amostra mais alargada). Todavia, apesar de achar que estas duas mortes fetais foram a razão que deteve inicialmente as grávidas, não creio que sejam a única razão pela qual elas se mantêm afastadas da Pandemrix.
Ana Jorge e Francisco George, parecem, ao contrário, persuadidos disso mesmo, talvez por não lhes interessar considerar as outras razões que as grávidas e muitos Portugueses possam ter para não querer ser inoculados com a vacina adjuvada da GlaxoSmithKline. Todavia, esta presunção de menoridade intelectual lançada sobre as grávidas acaba por ter o efeito contrário ao esperado.
Num sinal claro de desespero, Ana Jorge resolveu invocar casos de grávidas que morreram após terem contraído a gripe A e ainda os casos de "pelo menos mais uma ou duas grávidas nos cuidados intensivos, que já tiveram as suas crianças, que foram partos pré-termo, que não foram vacinadas e correm risco de vida" (DN, 2009-11-29).
A julgar pelas fontes consultadas, Ana Jorge não parece ter-se dado ao trabalho de especificar se a gripe A foi a causa única ou sequer a causa principal da morte das duas grávidas a que se refere. Tão pouco explica se as grávidas não-vacinadas que estão nos cuidados intensivos já contraíram efectivamente a Gripe A ou se está simplesmente a falar de um perigo potencial.
Todavia, mais importante ainda do que a qualidade dos casos invocados pela ministra, ou pelos directores hospitalares que lhe fazem eco está o carácter especioso e casuístico da argumentação utilizada. Ou seja, Ana Jorge anda a fazer precisamente aquilo de que ela e o seu director-geral de saúde acusam os media e as grávidas: transformar casos pontuais em tendências gerais, a contiguidade temporal em relação causal, e a potencialidade em realidade.
Ana Jorge e Francisco George sabem muito bem que, tragédias pessoais à parte, falar de x mortes de grávidas que contraíram a gripe A (e reparem que, subtilmente, a atribuição causal é quase sempre implícita) ou de y grávidas com gripe A nos cuidados intensivos é desprovido de um conteúdo tangível em termos de saúde pública a menos que seja dentro de uma comparação significativa ou em referência a um universo que lhes dê significado estatístico. Assim, conviria saber quantas mortes fetais ocorrem todos os anos em grávidas que contraíram a gripe sazonal ou quantas grávidas e parturientes necessitam de cuidados intensivos todos os anos após terem contraído a gripe sazonal.
Ao dramatizar casos particulares e ao apelar despudoradamente ao sentimento a ministra está a minar a sua própria credibilidade. Todavia, Ana Jorge ultrapassa todas as marcas ao pôr em causa o bom julgamento dos clínicos que não pensam como ela e ao proferir uma verdadeira ameaça velada: "Se uma das grávidas a quem foi aconselhado não fazer a vacina tiver um problema, de quem é a responsabilidade, pelo menos, a responsabilidade moral e ética?" Depois de um aborto espontâneo e duas mortes fetais em grávidas portuguesas que seguiram o conselho da boa ministra, poderia aqui virar-se o bico ao prego e perguntar-se-lhe se está disposta a assumir a responsabilidade, senão criminal, pelo menos moral e ética das referidas mortes caso se prove que as mesmas foram causadas ou adjuvadas pela vacina? Ou será que a responsabilização só funciona num sentido, que é o mais conveniente para a ministra?
O facto de o uso da Pandemrix ter sido aprovado pela Agência Europeia do Medicamento para pessoas de todas as idades acima dos seis meses, incluindo grávidas, sem que a segurança da vacina ou a do seu aditivo, o AS03, tenham sido clinicamente testado em grávidas e em crianças entre os 6 e os 35 meses, não isenta o Estado Português das suas responsabilidades perante os seus cidadãos.
Não é por acaso que o Estado Alemão se preparava para vacinar os seus funcionários públicos e o seu exército com a vacina não-adjuvada reservando a adjuvada para a restante população (Ver artigo no Irish Times). Não é por acaso que a Associação Médica Alemã se insurgiu contra o plano aconselhando o uso da vacina não-adjuvada nas crianças e nos grupos de risco (e as grávidas são um grupo de risco). Mais:
Não é por acaso que o Estado Francês reservou doses suficientes de vacinas sem adjuvante para as "grávidas, as crianças entre os 6 e os 23 meses e as pessoas sofrendo de doenças sistémicas (como o lupus ou a sarcoidose) ou de uma imunodeficiência associada a um problema grave de saúde" (Le Monde, 2009-11-28).
Ao contrário do que a ministra da saúde e outros responsáveis político-burocráticos portugueses parecem julgar, as grávidas portuguesas não são estúpidas. Pelo contrário, elas sentem e sabem que aqueles cuja responsabilidade deveria ser velar pelo seu bem estar e segurança não estão a fazer um bom trabalho. Provavelmente a maior parte delas sabe utilizar um motor de pesquisa melhor do que a ministra da saúde e, num país de emigrantes, muitas delas saberão ler notícias noutras línguas bem melhor do que Ana Jorge.
Se Ana Jorge realmente acredita que a Gripe A é a ameaça que diz ser, na sua qualidade de médica e de ministra da saúde deveria ter feito tudo ao seu alcance para garantir que pelo menos as grávidas e as crianças mais pequenas pudessem ter acesso a vacinas não-adjuvadas. As grávidas têm toda a razão em desconfiarem da segurança da Pandemrix. Têm as mesmas razões que a Associação Médica Alemã e que o Estado Francês -- e têm as mesmas razões que o Estado Federal Americano que está a disponibilizar apenas vacinas não-adjuvadas para todos os segmentos da população.
No mesmo artigo do Correio da Manhã que dá voz às tentativas desesperadas de pressão da ministra sobre os profissionais de saúde lê-se que "ao fim de um mês de vacinação, há cem mil portugueses que optaram pela vacina. O aumento da população imunizada é uma das causas apontadas para a redução da epidemia em Portugal." Infelizmente, o artigo não explicita quem faz esta afirmação cabeluda, mas o contexto permite-nos inferir que se trata ainda de Ana Jorge. Seja quem for, labora na linha do ministério da saúde ao querer fazer-nos acreditar que a vacinação de menos de 1% da população Portuguesa é o responsável pela redução da epidemia (redução que se está a verificar em muitos outros países). Há um nome na linguagem comum para isto: chama-se uma patranha desenvergonhada.
Mas esta patranha permite-nos compreender melhor a ansiedade de Ana Jorge e de Francisco George. É que estes senhores precisam de vacinar ainda muita gente para:
1) poderem reclamar o crédito, que já praticamente lhes fugiu das mãos, de terem controlado a pandemia;
2) poderem disfarçar o facto de a Gripe A não ser tão grave quanto têm apregoado;
3) esconderem o facto de que a taxa de mortalidade da Gripe A é provavelmente inferior à da gripe sazonal;
4) escamotearem o facto de que andaram a recomendar que grávidas e crianças pequenas fossem inoculadas com uma vacina adjuvada que foi aprovada sem que a sua segurança e a segurança do seu adjuvante tivessem sido clinicamente testadas em grávidas e em crianças com idades compreendidas entre os 6 e os 35 meses.
No mesmo artigo somos informados de que já morreram 8452 pessoas em todo o mundo depois de contraírem a Gripe A, o que parece impressionante. Até considerarmos o facto de que todos os anos morrem entre 250.000 e 500.000 pessoas no mundo devido à gripe sazonal segundo dados da OMS (2009-11-11, Reuters).