Quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

Entre uma gripe ambígua e uma vacina equívoca, sairá o barato caro?

No passado dia 13 de Novembro enviei o seguinte email a um certo número de correspondentes portugueses:

«Junto envio informação sobre a Gripe A de que tive recentemente conhecimento apesar de remontar a Agosto último [trata-se de um artigo de opinião intitulado: "Ante la gripe A, paciencia y tranquilidad" da autoria do Dr. Juan Gérvas, publicado no El País de 2009-08-14, e que incluí no corpo do email].

«Confirmei a fonte (El País), que é fidedigna, e as credenciais do autor conferem-lhe crédito.

«Esta informação põe em causa os pressupostos da abordagem da Gripe A pela maioria dos Estados e organismos internacionais.

«E alerta para a possibilidade de riscos não negligenciáveis da vacina contra a Gripe A.

«Na mesma linha, sugiro a leitura de um artigo mais recente numa publicação noticiosa Basca bilingue (Castelhano, Francês) e a consulta de uma carta aberta assinada pelos Drs Juan Gérvas (ver perfil em mgfamiliar.net) e James Wright (University of British Columbia) e traduzida em diferentes línguas no site da associação dirigida pelo Dr. Gérvas (Equipo CESCA).

«Estes são apenas mais alguns elementos de informação.

«Os argumentos securitários invocados pelas instituições públicas devem merecer a nossa melhor atenção. Mas quando nos convidam, sem dúvida com as melhores intenções, à aquiescência acrítica, talvez não seja uma perda de tempo ponderar as informações e as opiniões divergentes.

«Ao contrário da mensagem incessantemente disseminada pelas diferentes instâncias do Estado Português, a relutância de grande parte do público e de uma parte substancial dos profissionais de saúde em fazer-se vacinar baseia-se em argumentos racionais, em precedentes históricos e em pareceres de autoridades médicas cientificamente credenciadas.

«Em última análise, cabe a cada um de nós julgar a informação disponível e decidir o melhor para nós e para os nossos filhos menores.

«Na expectativa de que esta informação lhe seja útil, subscrevo-me com os meus melhores cumprimentos...»

Tendo escrito esta mensagem há algum tempo atrás, é com consternação que assisto à terceira morte em cinco dias de um feto em avançado estado de gestação numa grávida recentemente inoculada com a vacina contra o H1N1. Mas mais consternado ainda fico com a reacção das autoridades médicas e políticas. Na ânsia de acalmar a população e de não perturbar o plano de vacinação pré-estabelecido, é utilizada toda a sorte de argumentos pouco rigorosos. Alguns parecem-me mesmo especiosos.

Entrevistados por jornalistas, os médicos repetem que não se pode atribuir a morte dos fetos à vacina contra a gripe A por não sido possível estabelecer, até ao momento, nenhuma relação causal entre a inoculação e a morte. Esquecem-se, no entanto, de dizer que, pelas mesmas razões, não se pode excluir a existência de uma tal relação. Como diz o adágio: "A ausência de prova não é prova de ausência."

Aprendemos também dos especialistas que ocorrem em cada ano em Portugal cerca de 300 mortes de fetos aparentemente saudáveis perto do termo da gravidez, e que, em geral, a causa da morte é desconhecida.

«Ontem, o secretário de Estado Adjunto e da Saúde, Manuel Pizarro, insistiu na tese da coincidência: "O facto de a grande maioria das mulheres grávidas se estar a vacinar explica que essas mortes, que são habituais, possam ocorrer em fetos de mulheres que se vacinaram".» (DN, 2009-11-19)

Resta, no entanto saber, quantas mulheres grávidas (e, particularmente, quantas mulheres nas últimas semanas de gravidez) já se vacinaram até ao momento. Se a grande maioria já tiver sido vacinada, então os números não são estatisticamente significativos. Mas se apenas uma pequena parte tiver sido vacinada até ao momento, então estas mortes poderão revestir-se de algum significado estatístico*.

Uma circunstância associada à escolha da vacina utilizada em Portugal deve, no entanto, pôr-nos de sobreaviso. Podemos ler no DN de 2009-11-18 que

«A vacina Pandemrix que está a ser usada em Portugal foi considerada segura pela Organização Mundial de Saúde, mas há países como Espanha e Suíça, que optaram por vacinas diferentes para grávidas. Isto porque consideraram que ainda não tinham sido realizados testes suficientes em grávidas com a Pandemrix, vacina que tem um adjuvante - uma substância usada para aumentar a resposta do sistema imunitário, fazendo com que seja necessário usar menos antigénio (o vírus morto), tornando as doses mais baratas e a sua produção mais rápida.» [Meu sublinhado.]

E ainda que a Autoridade Nacional da Farmácia e do Medicamento reafirme a segurança da vacina invocando a autoridade do Grupo de Farmacovigilância da Agência Europeia do Medicamento, não devemos esquecer-nos que estas entidades caucionaram a utilização da vacina agora sob suspeita. E como reza um outro adágio que sói esquecer-se em Portugal: "Ninguém é bom juiz em causa própria." Particularmente se estiver em causa a credibilidade e a responsabilidade intelectual, política e, ultimamente, moral dos decisores envolvidos.

O alibi banal da entidade "estrangeira" traz à colação um outro argumento que tem sido repetido pelos médicos para desqualificar a possibilidade de haver uma relação entre a vacina utilizada em Portugal para a gripe A e as mortes de fetos cujas mães foram inoculadas. Dão esses médicos a entender que uma tal relação causal é impossível porque não se conhece nenhum outro caso comprovado noutro país! Um deles precisa mesmo que não há nenhum caso descrito na "literatura" (especializada, entenda-se). Faz-me lembrar o síndroma da "não-inscrição" que descreve José Gil no seu livro Portugal Hoje. De facto, para ser real, uma tal relação de causalidade teria primeiro de ser constatada no sacrossanto "estrangeiro."

Para além de traírem os seus complexos de inferioridade bem portugueses, estes médicos esquecem-se de acrescentar que Portugal é um dos países no mundo onde a vacinação contra a Gripe A está mais avançada, ao que não será certamente alheio o facto de as autoridades portuguesas terem escolhido uma vacina com menos antigénios e, por isso, com adjuvantes, mais barata e mais fácil de produzir em massa. Uma vacina que foi rejeitada noutros países precisamente por, entre outras razões, o seu efeito em grávidas não ter sido suficientemente testado e não ser suficientemente conhecido. Se vierem a produzir-se efeitos adversos em grávidas, onde julgam estes médicos que estes efeitos se produzirão primeiro?

Carla Caeiro foi a primeira mulher portuguesa cujo feto morreu três dias depois de ter sido inoculada com a Pandemrix. «Carla foi vacinada na quarta-feira e segundo a família, as reacções à vacina começaram a manifestar-se logo, com "dores no corpo". No dia seguinte, a família assusta-se com a agitação da bebé, e sábado foram ao Centro de Saúde onde se terá verificado que o feto tinha um batimento cardíaco baixo.» (DN, 2009-11-17.) Reenviada para casa, Carla acabou por recorrer ao Hospital de Portalegre onde se constatou a morte do feto (Público, 2009-11-16.)

Talvez haja uma ligação entre a Pandemrix e a morte dos fetos, talvez não.

Todavia:

o carácter especioso dos argumentos utilizados pelas autoridades médicas e políticas para defender a inocuidade da vacina escolhida pelas autoridades portuguesas,

o silenciamento do debate sobre os eventuais efeitos adversos dos adjuvantes contidos em vacinas como a Pandemrix (um debate que ocorre abertamente no mítico "estrangeiro" e que levou à recusa, em muitos países, da administração de vacinas "adjuvadas" contra o H1N1, ora a toda a população, ora a crianças e a grávidas),

e a funesta tradição de assentimento acrítico aos ditames dos poderes públicos que Portugal arrasta ainda como uma herança tenaz da ditadura,

-- todas estas razões nos devem levar a redobrar a vigilância sobre os poderes públicos e a confiar mais no nosso juízo informado do que nas autoridades políticas e técnicas cujos móbiles estarão sempre, em última análise, para além dos limites do nosso escrutínio.

Alguns artigos do DN sobre esta questão:

Gripe A: Grávida vacinada perde feto de 34 semanas (s/d)

Morte de feto assusta grávidas (2009-11-17)

Gripe A: Terceiro feto morto em grávida vacinada (2009-11-18)

Grávida que perdeu bebé está bem de saúde (2009-11-18)

Gripe A:médicos recusam ligar morte do feto à vacina (2009-11-18)

Autoridades investigam novo caso de morte de feto (2009-11-18)

Agência Europeia analisa mortes de fetos em Portugal (2009-11-19)

* Nota de 2009-11-20: pelos vistos, até agora, apenas 50.000 pessoas foram vacinadas em Portugal, das quais se pode presumir que apenas um (muito) pequeno número é de grávidas. Talvez afinal as mortes fetais sempre sejam estatisticamente significativas. Quem assevera ou dá a entender que não são tem a obrigação intelectual e moral de exibir os dados em que se baseia. Pior, a Autoridade Europeia para o Medicamento admite agora a ocorrência de casos de síndrome de Guillain-Barré e de mortes fetais em pessoas inoculadas; resta saber: 1) se estes casos ocorreram apenas em pessoas inoculadas com vacinas com adjuvante e 2) qual a proporção de casos ocorridos em pessoas inoculadas com a Pandemrix; já sabemos que, em Portugal, são todos os casos.