Quarta-feira, 24 de Fevereiro de 2010

Cavaco Silva e Ferreira Leite: As Verdadeiras Faces Ocultas?

As escutas publicadas pelo Sol, com todo o seu aparelho interpretativo, pareciam não deixar espaço para dúvidas quanto ao envolvimento de Sócrates na compra da TVI pela PT e quanto ao fito da operação que seria calar a viperina Moura Guedes. Ora, novas escutas, desta feita publicadas pelo Diário de Notícias (DN, 2010-02-24) dão a entender que, pelo contrário, Sócrates não só não sabia das pretensões da PT como ficou furioso pelo facto de não ter sido informado:

«"...ai Jesus... agora [José Sócrates] está todo lixado comigo, que eu o devia ter avisado [do negócio PT/TVI]. Mas eu sabia lá... Agora eu digo-te uma coisa... agora temos - Sócrates que não quer, a Manuela que não quer, o Cavaco que não quer... a PT que quer... pá... vou ter que tirar o sonho do Zeinal"
Escuta: Rui Pedro Soares para Paulo Penedos
Data: 25 de Junho
Hora: 19.55»

Em contrapartida, ficamos a saber:

1) que Ferreira Leite estava (assim como Cavaco Silva) ao corrente do processo de compra,

2) que terá manifestado a sua aprovação da mesma,

3) que no último minuto foi para a televisão denunciar e opor-se ao negócio que julgava, erradamente, já ter sido consumado,

4) e que tanto Ferreira Leite quanto Cavaco Silva foram informados pelo marido de Moura Guedes e ex-director geral da TVI, José Eduardo Moniz.

Não é difícil juntar estas peças do puzzle e ver a silhueta da peça que falta. Com efeito, a tese da orquestração da compra por Sócrates cai por terra, ao passo que a sua manipulação por parte de Ferreira Leite e, possivelmente, de Cavaco Silva, afim de acusar Sócrates, em plena campanha eleitoral, da tentativa de silenciamento de uma jornalista incómoda, se revela uma possibilidade verosímil. Depois de um assessor do Presidente ter sido apanhado a plantar no Público acusações caluniosas e infundadas de espionagem do governo sobre a presidência da República, nada me espanta.

O que quer isto dizer?

Que em Portugal não existe isenção e independência jornalística. Que a verdade não é uma matéria política nem mediática em lado nenhum e muito menos em Portugal.

Quer isto dizer que Sócrates está inocente?

Talvez sim, talvez não. Mas uma coisa é certa: se a confiança na Justiça e nos poderes políticos está de rastos, os media acabam de juntar-se de pés juntos à ignomínia.

Seja como for, agora compreendo como é que Ferreira Leite compensa a sua total ausência de pensamento: encostando-se ao Maquiavel-mor e tricotando incessantemente nos bastidores. O PSD tornou-se num verdadeiro ninho de cobras ou, noutros termos, numa cesta da pior moeda cavaquista. Cada vez melhor compreendo o pânico gerado pela candidatura de Passos Coelho.

Post Scriptum (2010-02-26):
Depois de destacar a perversidade decadente que, à volta das acusações a Sócrates, se recorta à direita, não consigo deixar de pensar na reacção automática que este tema suscita no seio da forma de estupidez à qual, em Portugal, se chama "esquerda."

Há quem, a propósito dos supostos actos censórios do governo, ensaie repetidamente o falacioso paralelismo entre o Portugal de hoje e o de Salazar. Faz-me lembrar a conversa de um membro do PC (ipso facto de qualquer membro do PC) para quem os sucessivos actos de governação pós 75 se reduzem a "eles," uma ficção que designa os não-comunistas, mergulhados em inerente conluio para o mal. George Orwell afirmou que o totalitarismo começa pela distorção da linguagem. Como os comunistas lusos o demonstram diariamente, podemos acrescentar que o totalitarismo perdura pelo esmagamento de todas as diferenças pela e a sua redução àquela que escora a sua visão provisoriamente maniqueísta do mundo -- digo "provisoriamente" por este maniqueísmo não passar de um instrumento em vista da nivelação prospectiva ou profética de todas as diferenças (cf., sob as botas dos irmãos Castro, o corpo de Zapata).

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